Dead Fish

 

Perguntas: Marco Henriques (U-Ganga / Páginas Vazias) e Marcelo “Pudim” (Páginas Vazias)
Respostas: Rodrigo

Vocês acham quem com a entrada do Marcão (Ação Direta) na batera no lugar do Nô, o som do Dead Fish ficou mais agressivo?

Talvez sim, eu gostava da forma mais punk de o Nô tocar. Com o Marcão ganhamos em velocidade também, é meio que tocar em cima de relógio dai ganhamos em algumas coisas que ainda estamos percebendo, agressividade é uma delas.

Como está sendo a repercussão do novo CD “Contra Todos”? Tem se falado que está bem na linha dos primeiros da banda (Sirva-se e Sonho Médio).Vocês concordam?

Eu não concordo que esteja na linha SIRVA-SE, mas sim na do SONHO MÉDIO, na real pra mim hoje é um SONHO MÉDIO feito por gente mais velha, mais sem esperança e mais raivosa até. Tem os elementos de espontaneidade do ZERO E UM também.

E os shows desse novo CD. Como tem sido?

Tem sido bons, na real fazia tempo que não me sentia tão a vontade no palco. O público tem ajudado também, acho que finalmente entenderam o que o DF quer num show e esta fluindo lindamente.

Como vocês vem o cenário de hardcore no Brasil, atual e na época em que a banda começou? Acham que melhorou ou piorou?

Melhorou e muito em vários aspectos como gravação, mão de obra que entende a porra toda, e divulgação. E piorou na parte de todo mundo se ajudar, não ter esta de dividir e sim de somar, sem falar que nego hoje nasce não querendo fazer o próprio som mas sim algo que faça sucesso.

Mas a grosso modo acho que tem muita gente fazendo coisas boas por ai, e o melhor no país inteiro.

Atualmente a banda está apenas com o Phillipe na guitarra. Porquê a decisão de ficar só com um guitarrista?

A decisão foi dele. Nós demos a opção de ele chamar alguém que ele gostasse pra tocar conosco, mas ele preferiu ficar sozinho e acho que ganhamos em peso ao vivo.

Como vocês analisam a evolução da banda, desde o primeiro CD (“Sirva-se”) até o último álbum, “Contra Todos”?

Estamos aqui a 18 anos né? Acho que é inevitável a gente evoluir, apesar de achar que muitas vezes fomos um pouco conservadores em alguns aspectos, vejo que criamos algo nosso e isso nos dá orgulho e pra mim é o mais importante.

As letras de vocês exploram bem problemas na sociedade e no indivíduo em si. A banda tem alguma ligação com algum movimento social e/ou político?

Eu faço boa parte das letras e sempre quis ter independência pra falar o que quisesse, muitas letras velhas se contradizem com novas e isso é parte do plano mesmo. Simpatizamos com muitos movimentos sociais sim desde sempre, mas nunca foi a minha nem a nossa intenção nos filiarmos a algum partido ou idéia construída de fora. Acho que crescemos vivendo nossas contradições e certezas com muita intensidade e internamente dialogando sempre, o que seria complicado se “comprássemos” um formato saca? Já esta de bom tamanho sermos uma banda de música, de hardcore.

Claro que sempre tivemos nossas idéias independentemente e individualmente. Eu da minha parte sempre fui mais a esquerda, fiz até campanha pro Lula em 89 e depois quis distância disso, tinha uma guerra pessoal com o meu pai sobre esquerda e direita que acabou não se concluindo porque ele morreu em 96, sem falar que sou vegetariano e acredito que as pessoas podem ser muito melhores não comendo bichos.

Ainda falando das letras, no primeiro CD vocês tem uma letra defendendo o MST. Vocês ainda continuam com esse mesmo pensamento?

Eu acho que este ainda é um dos poucos movimento que tem idéias claras da sua proposta. Não concordo com algumas delas, principalmente uma parte de sua formação ideológica maoísta. Mas ainda tenho muita confiança no trabalho dos caras.

Vocês já passaram por Uberlândia 2 vezes, em duas fases bem diferentes da banda. A primeira vez na tour do “Afasia” e a segunda vez já com um CD lançado por uma gravadora. Alguma lembrança desses dois shows (além do infeliz fato de terem sido roubados na segunda vez)?

Hahahahaha, eu já tinha quase esquecido que perdi todos os meus documentos ai. Inclusive desisti de dirigir definitivamente ai, quando me levaram a carteira de motorista e o agasalho que mais gostava. Mas isso é passado, deixa pra lá, foda-se, sabemos bem quem foi que fez a parada e até hoje não entendemos muito direito.

O relevante é que os shows ai sempre foram bons, na tour do AFASIA conheci um monte de gente que conhecia só por carta e foi demais. Me lembro que era um galpão grande e estava muuuuuito quente, demos um rolê pela cidade e foi do caralho.

E falando do cenário nacional…quais bandas vocês andam escutando e indicam pros nossos leitores?

Esta semana eu passei ouvindo umas velharias do AC/DC e do BB King, umas bandas argentinas como Vieja Escuela, Nueva Etica e Boom Boom kid. Baixei o novo do Rancid que ouvi pouco pra ter uma opinião e tenho ouvido sem parar o novo do Propagandhi que se chama Supporting Caste, este trabalho me assusta de tão bom que achei.

De bazucas tenho ouvido o Macaco Bong que acho demais e o último do Discarga que tinha ouvido pouco até agora.

E o “Projeto Peixe Morto”? Algum plano de lançar algo?

Não pensamos em nada quanto a isso, mas o Aly sempre quis ressuscitar esta merda hahahahahaha.

Pouco antes de vocês fecharem contrato com a Deck, o Dead Fish quase encerrou as atividades. Como vocês avaliam a saída do independentee entrada pra uma gravadora? Pontos positivos e negativos.

Definitivamente tivemos pontos muito positivos e outros negativos. Os positivos foi poder durante 4 anos nos concentrarmos na música e vivermos dela que era o que queríamos. Os negativos é que sempre encontramos dificuldades com a nossa forma de pensar e a do mainstream que é uma coisa mais superficial, nem os acuso disso, nós fizemos esta opção portanto não podemos reclamar, mas realmente aconteceram alguns choques de idéias durante um tempo.

Estávamos acostumados a termos um diálogo maior com contratantes e pessoas ligadas ao independente, durante um tempo isso ficou meio apagado internamente porque estávamos vivendo uma realidade muito corrida, já não éramos nós que negociávamos nossos shows e algumas de nossas entrevistas e isso acabou nos afastando por um tempo de gente que gostávamos, que estavam envolvidas no mesmo cenário independente que viemos. Com o tempo fomos aprendendo o traquejo da coisa e fomos nos aproximando, ou tentando, de novo de pessoas que conhecíamos e confiávamos no passado.

De resto não posso reclamar, tivemos nosso espaço na tv, algum em rádios que nunca tocariam a gente se fossemos independentes tocaram nosso som e é isso, fizemos o que deveria ser feito da melhor forma possível.
Isso com certeza alterou a rotina de todos da banda.

Rodrigo, você ainda tem algum contato com a profissão de professor ou esta só nos palcos?

Eu deveria ter um emprego cara, sinceramente, mas sou tão vagabundo do caralho que acabo deixando tudo pra mais tarde. Na real podia ter escrito mais, estudado mais e até achado um novo caminho pra mim individualmente nos últimos quatro anos. Mas viver de música é tão divertido e tão bom que talvez eu pague bem caro num futuro próximo. Tudo bem, escolhas né cara.

Sempre quando ouvimos Dead Fish, temos a idéia de letras interessantes e bem feitas com uma sonoridade que se encaixa perfeitamente dentro do Hard Core melódico, sem prejudicar ou cair no “emoismo”. Como é o processo de composição de um disco do Dead Fish?

Já passamos por vários processos cara, desde a música vir primeiro e eu encaixar a letra, ou ter uma melodia de voz e dali sair fazendo riffs, até letras já prontas que viraram música. Não nos forçamos a ter uma fórmula, nos forçamos a gostar do que estamos fazendo. Neste trabalho, fiz muita coisa junto com o Phil que é um cara que zela muito pela sonoridade da coisa, as vezes ele chegava com um riff e eu jogava uma idéia em cima, ou as vezes, como na música “Quente” eu cheguei com a primeira estrofe e desenvolvemos em cima. O resto foram Jams em estúdio e um trabalho de pré-produção que valeu muito a pena, porque nos gravávamos todos os dias e víamos o tempo a forma de cantar e íamos mexendo, até ficarmos satisfeitos.

Pra finalizar, espaço aberto pra vocês deixarem um recado pros leitores do Cultura em Peso. Valeu!

Primeiro obrigado pelo espaço, sempre que quiserem estamos aqui.
Segundo, gostaria de pedir pra quem conseguiu ler esta entrevista até o fim que comprem o cd que esta muito bonito e bem feito, é um cd que nos deixa orgulhoso e nem esta tão caro no show.
Terceiro um grande abraço e sorte pra vocês.

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Cremo é idealizador e fundador do Cultura em Peso, Asatrú, amante incondicional da fotografia e da cena underground, na qual vive intensamente há 16 anos. Formado em Redes para Computadores, é ex-vocalista das bandas La Tormenta (Grind) e Dead Bush (Punk), ambas de Minas Gerais. Ouve de Punk Rock a Metal Extremo, tendo como principais bandas na sua playlist Ratos de Porão, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Circulo Activo, Amon Amarth, Elluvetie e Lacerated and Carbonized. Literalmente um Viking que não marca território: o mundo é sua morada. Lê constantemente sobre política, religião, história das guerras e a autodestruição humana que não aprendeu até hoje a viver com as diferenças. Some com a cena ou suma dela mesmo, agora!

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