Justiceiros do underground

 

Ideologia, palavra de uso freqüente nos campos políticos formais, informais e marginalizados. Saber o que se quer, o que se pretende ou onde se deseja chegar nesta vida é uma sina de cada ser humano. Desde que nascemos, esboçamos os primeiros impulsos de nossas vontades, mesmo elas sendo induzidas por terceiros (familiares, amigos, professores etc.) ou originadas devido a não aceitação das indicações impostas pela maioria. A vida é exatamente isso, um jogo de escolhas de condutas, códigos, posturas e conceitos que irão dizer quem você é e o que você objetiva em sua existência.
Optei escrever sobre um tema que vem me chamando a atenção a algum tempo, e que muitos temem em falar para não se comprometer com algo, ser mau interpretado por outros ou por simples covardia. Guerras ideológicas, estas estão presentes na história humana desde que se constatou a oposição de idéias entre homens. Vou me limitar a comentar e emitir opinião sobre um contexto bem conhecido dos que freqüentam a cena underground alternativa das zonas urbanas, mas precisamente da cidade que nasci e vivo, Natal/RN, local este que nos últimos meses está sob tensão por causa do crescente número de integrantes de grupos Skinheads Sharp e Rash (Skinhead – Skin = Pele, Head = cabeça, geralmente traduzido como: cabeça raspada ou careca).

 

 

Natal, sempre foi uma cidade muito provinciana, conservadora e que até hoje de forma geral tem muita dificuldade de aceitar e assimilar o novo, mesmo que este “novo” não seja mais tão novo assim lá fora. A cena alternativa de Natal (refiro-me ao Rock mais agressivo e contracultural como o Punk, o Hardcore e o Heavy Metal) tem uma história relativamente curta e bem jovem, pois os primeiros registros de pessoas que curtem um som mais extremo de cunho subversivo advêm do início da década de 1980, no entanto seu “Boom” maior só se deu em meados da mesma década, onde discos foram gravados dando o ponta-pé “oficial” no que vem a ser hoje o underground Natalense. Alguns anos se passaram, novas bandas surgiram e sumiram da mesma forma; mais e mais jovens se encantaram com a cultura do som agressivo e dão continuidade a cena; alguns guerreiros daquela época ainda estão na ativa, porém outros levam suas vidas comuns no ostracismo da monótona “vida Matrix”, mas o que sabemos é que muita coisa mudou e continua mudando. Hoje encontramos no underground de Natal diversos grupos e ideologias se envolvendo, se combatendo ou se desenvolvendo, temos ao gosto do freguês, Vegans e vegetarianos diversos; Grinders; a galera do Black Metal, White Metal, Power Metal, Metal Tradicional, Thrash Metal, Death Metal e demais subgêneros; a galera do Hardcore e do Punk, Hippie e tudo que você imaginar e mais um pouco; também temos Anarco-Punks e Skinheads.

 

 

Não me rotulo pertencente a qualquer uma das “tribos” ou grupos sociais acima citados pelo fato de partilhar com diversos deles muitas idéias, valores, conceitos etc. assim como discordo de tantas outras questões dos mesmos. Isso sou eu, meu rótulo são as minhas palavras e atitudes, dessa forma me identifico, tento absorver o melhor de todos e excluo os pontos que considero irrelevante e negativo para minha convivência com outras pessoas e comigo mesmo, com isso construo o meu próprio sistema ideológico, no entanto preservo as minhas raízes libertárias, mas sem se prender a dogmas ou utopias que enferrujam nossa mente e nos torna “burrocráticos” quanto à vida e aos que criticamos. Respeito os que se dizem ser isto ou aquilo, no entanto não aceito a imposição do que eu devo ser ou como devo agir. Este é o grande problema da nossa cena no momento, o autoritarismo e imposição de ideologias. Como podem pessoas que se dizem anarquistas/libertárias forçar e impor seus valores, idéias e condutas sem entrarem em contradição com sua filosofia de vida? Pois bem, os Anarco-Punks de Natal fazem isso, ou melhor, tentam, mas se perdem no imenso oceano do absurdo da ignorância. Com o crescente número de adeptos do movimento Skinhead (já existiam alguns, porém se isolavam) na cidade, estereótipos já batidos em outras cidades do país e do mundo se acentuaram e reforçaram-se aqui. A “suspensóriofobia” por parte dos ditos Anarco-Punks contra Skinheads SHARP e RASH vem causando tensão e brigas em shows e encontros da galera alternativa, o que a cada evento cresce mais e mais. Sempre apoiei boa parte da cena Anarco-Punk daqui, porém de uns anos para cá me afastei deles devido à falta de coerência, atitude e respeito pelas idéias alheias, uma vez que a anarquia “pregada” por eles é quase ditatorial e a imposição de suas “verdades” é quase lei. Trocando em miúdos, se você não pensa igual aos Anarco-Punks, você é alienado, fascista, racista, homofóbico, não presta etc. Os “justiceiros do underground” estão perdendo dia após dia o pouco de respeito e atenção que tinham na cena, já que alguns deles perderam totalmente a noção do que vem a ser o Punk, pois suas atitudes são controversas, o discurso é vazio e apenas da boca para fora, outros não passam de um bando de “noiados” e alcoólatras que ficam buscando encrenca a cada esquina, e o pior é que procuram briga com amigos (ou ex-amigos para eles) e pessoas conhecidas da cena. Muitos se afastam deles e não dão mais ouvidos as asneiras e ignorâncias proferidas. O mais engraçado disso tudo é que os Anarco-Punks iniciam as brigas e depois saem falando para os leigos e em redes sociais virtuais que os Skinheads é que começaram (estive presente em várias situações). Usam a “metodologia” suja, covarde e difamatória que cansamos de ver na Globo e demais canais sensacionalistas, que não tem compromisso com a verdade, com isso divulgam matérias difamando tudo e a todos como se fossem todos iguais, seja Punk, Skin, Skatista, Headbanger etc. O problema é que com o passar do tempo as brigas se tornam mais freqüentes e agressivas, chegando um dia talvez ao ponto de causar mortes. A bola de neve aumentará e ninguém lembrará mais porque tudo começou, sendo a justificativa para mais violência a simples oposição ou diferença ideológica, o círculo vicioso é perigoso, pois depois que ele se estabelece não há mais controle, ambos os grupos se tornarão mais agressivos e violentos para vingar uma treta anterior e por aí vai.

 

 

Não vejo o crescimento Skinhead aqui em Natal como uma coisa ruim ou ameaçadora para alguém, pois conheço o suficiente da história deste movimento, sua origem, princípios, condutas, objetivos e alguns integrantes para não temê-lo ou rejeitá-lo, contudo não podemos nos esquecer das ramificações distorcidas e falsas que surgiram durante a história através de bandas influenciadas por idéias realmente fascistas, racistas, xenofóbicas, idiotas e ridículas, onde foi agregada a ideologia nacional-socialista alemã (Nazismo) ao rótulo ou imagem Skinhead. Os “Skins” Neo-Nazi, são os que a mídia dominante usa e explora para denegrir a imagem de todo movimento, juntando tudo em uma panela só e condenando-os a um estereótipo já estabelecido no consciente coletivo, o de Racistas e Fascistas, porém já desmistificado pelos mais informados. Um grande exemplo de Skin Nazistas são os “Boneheads” White Power (Boneheads, é uma denominação pejorativa utilizada pela maioria dos Skinheads não-racistas, não-fascistas e verdadeiros, que significa algo como “cabeça dura” ou “parvo” na gíria inglesa, assim rotulam os falsos Skins), RAC (Rock Against Communism = Rock contra o comunismo), Carecas do Brasil (grupo não racista em sua maioria, aceitando negros e nordestinos na sua organização, porém grupos mais fechados do mesmo seguimento não toleram negros e são altamente xenofóbicos) e Carecas do Subúrbio. Em contra partida encontramos os Skinheads trojan (também conhecidos como Skinhead tradicionais ou apenas Trad Skin), S.H.A.R.Ps (abreviatura de Skinheads AgainstRacial Prejudice = Skinheads contra o preconceito racial), R.A.S.H (abreviação de Red and Anarchist Skinheads = Skinheads comunistas e anarquistas) e os Redskins, que no contexto da subcultura Skinhead, convertem-se em um Skinhead esquerdista comunista ou socialista, e por vezes são encontrados entre os S.H.A.R.Ps e os R.A.S.Hs. Existem outras linhas ideológicas dentro do movimento Skinhead, sendo que algumas com peculiaridades que diferem de outras aparentemente iguais, mas nos limitaremos a falar dos mais conhecidos.

 

 

Há quem possa questionar sobre postura, coerência, identidade e todo esse arsenal ideológico importado de movimentos europeus, seja ele Punk, Skinhead, Head Banger etc., mas isso não vem ao caso, pois até o samba e derivados têm suas raízes em outro continente, na África, e nem por isso deixou de ter uma identidade “abrasileirada”, por este motivo é descartada qualquer tentativa de negar um movimento social qualquer, uma vez que o Punk, o Heavy Metal ou o Hardcore servem como exemplo de como uma cultura importada se adapta ao contexto que vivemos, assim como hoje “importamos” (Brasil) nosso estilo underground para o resto do mundo, e se é bom por que não “consumi-lo”? Qual o problema? A nossa resposta a estes “justiceiros do underground” é que a alienação se metamorfoseia em diferentes aspectos, fazendo até mesmo se passar por um caráter de senso-crítico. Enquanto os Anarco-Punks pronunciam lindos slogans libertários, se aprisionam à postura do movimento do qual fazem parte e nem se dão conta que estão em um mar de imbecilidade e ignorância, já que o Punk quando surgiu não tinha pretensão de se tornar uma espécie de partido político autoritário, com regras e códigos para ser considerado um deles. Se querem atingir alguém ou mudar o sistema, estão atacando as pessoas erradas, uma vez que o movimento underground em si já é contracultural, por mais que alguns não compreendam isso. Não podemos ficar atirando pedras uns nos outros e se autodestruindo, porque é exatamente isso que as elites querem. Temos que direcionar nossos discursos e atitudes ao verdadeiro inimigo e não ficar gastando energia com quem pensa igual ou parecido. O Rasta, o Raper, o Hippie, o Skin (verdadeiros e não os boneheads), o Punk, o HeadBanger, o Skatista, o Grind, o Hardcorer e demais rótulos encontrados no submundo cultural/ideológico/alternativo tem algo em comum, que é a revolta e insatisfação com um mundo ou sistema que não condiz com o que pensamos e sentimos, por este motivo acredito que condutas ignorantes e fóbicas por parte de qualquer lado, acabam por limitar e destruir o próprio movimento que se nega a dar o braço a torcer em dizer “eu estava errado, e peço desculpas!”, já que não é demérito, errado ou feio assumir que estava enganado sobre algo, mas sim sabedoria e dignidade, contudo o ego e o orgulho às vezes impedem algumas pessoas de assumirem seus equívocos.
Não estou querendo ser uma Madre Teresa de Calcutá ou dizendo que os Skinheads são santos, e sei que as coisas não funcionam assim na prática, mas basta haver o respeito básico e mútuo de ambos os movimentos que as coisas melhoram. Se neguinho não curte “A” ou “B”, passa reto e não solta piada, caso contrário vamos criar na nossa cidade o Ganguismo tão falado nas manchetes de jornais de cidades maiores. Nazi-Punks, por exemplo, são comuns em vários lugares do mundo, mas não é por causa de uma minoria acéfala que se intitula assim que o movimento Punk é dessa forma ou deve ser crucificado e rotulado de Nazi, pois sabemos que essa não é a real. A estagnação intelectual destrói qualquer discurso, mesmo ele estando embasado em idéias libertárias. Fui e sou influenciado pelo movimento punk, assim como me afeiçoei a outras linhas ideológicas, porém nunca me prendi nem tampouco me rotulei a nenhuma delas, pelo fato de não compactuar integralmente a “fôrma ideológica” que cada uma oferece. Esta é a minha opinião sobre o assunto, sou testemunha ocular do que vem acontecendo, pois estou presenciando vários abusos e absurdos por parte dos Anarco-Punks que freqüentemente vem implicando e criando discussões bobas que só levam a violência, e olha que os Skins tentaram até marcar encontros para esclarecimentos, apaziguação e amizade, mas que foram devolvidos com desdém e um grande NÃO dos Anarco-Punks, que alegam não se misturarem com “Fascistas e Racistas”, piada! Quem está sendo fascista e preconceituoso nesta história? Acredito na união e na convivência pacífica entre Punks e Skins, assim como existe em outras cenas mundo afora, ou ao menos o respeito mútuo. Abaixo deixo vocês com a letra e o vídeo da banda “Horda Punk”, que manda uma mensagem clara e objetiva na letra “Anarquia proposta nunca imposta”. Aconselho também aos mais leigos e desenformados a assistirem o documentário “Skinhead attitude”, que explica e ilustra bem a origem do movimento, suas ramificações, bandas mais conhecidas, a influência da música dos jamaicanos imigrantes na cultura Skin e o nascimento dos temidos Boneheads (Skins Neo-Nazi). Abraço a todos e até a próxima.

 

Baixe o documentário legendado em português aqui: http://www.megaupload.com/?d=04QR8W10

Hotda punk: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=1Pubqo6emdk&gl=BR

Anarquia Proposta Nunca Imposta

Horda Punk

Composição: HORDA PUNK
Contra toda imposição do dogmatismo
Nos recordemos da tirania histórica
E não nos falte a força necessária
Para ser intenso como uma retórica
Que ninguém mais seja um comandado
Para que ninguém imponha uma vontade
Para acabar com toda autoridade
A Anarquia é o caminho inevitável

Vamos caminhar rumo à igualdade
Sem opressão do homem pelo homem
Sempre que se impuserem com a força
Vamos rebater a força com a força

Mesmo que estejamos perseguidos e fatigados
Anarquia proposta nunca imposta
Mesmo que estejamos com medo e cansados
Anarquia proposta nunca imposta
Usaremos sempre a força contra a força
Anarquia proposta nunca imposta

Vamos caminhar rumo à igualdade
Sem opressão do homem pelo homem
Sempre que se impuserem com a força
Vamos rebater a força com a força

Não importa a envergadura do governo
Não nos impede de ser um combatente
Toda vez que se enfraquece a autoridade
Toda vez que conquistamos liberdade
Toda a vitória sobre o patronato
Todo o esforço contra sua exploração
Toda a vitória da classe operária
Toda a batalha contra a sua coação
Quando o governo é aceito como inimigo
A anarquia é um passo eminente

Vamos caminhar rumo à igualdade
Sem opressão do homem pelo homem
Sempre que se impuserem com a força
Vamos rebater a força com a força

Mesmo que estejamos perseguidos e fatigados
Anarquia proposta nunca imposta
Mesmo que estejamos com medo e cansados
Anarquia proposta nunca imposta
Usaremos sempre a força contra a força
Anarquia proposta nunca imposta

 

(29/07/2011) Pigmeu

Comentários

comentários

Cremo é idealizador e fundador do Cultura em Peso, Asatrú, amante incondicional da fotografia e da cena underground, na qual vive intensamente há 16 anos. Formado em Redes para Computadores, é ex-vocalista das bandas La Tormenta (Grind) e Dead Bush (Punk), ambas de Minas Gerais. Ouve de Punk Rock a Metal Extremo, tendo como principais bandas na sua playlist Ratos de Porão, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Circulo Activo, Amon Amarth, Elluvetie e Lacerated and Carbonized. Literalmente um Viking que não marca território: o mundo é sua morada. Lê constantemente sobre política, religião, história das guerras e a autodestruição humana que não aprendeu até hoje a viver com as diferenças. Some com a cena ou suma dela mesmo, agora!

Matérias relacionadas