Os três palhaços

 

Pouco se sabia sobre eles. Também ninguém tinha interesse em saber. Três pacatos homens, de meia-idade, vida padrão, considerados “totalmente normais” pela comunidade que moravam. Trabalhavam como palhaços em todas as festas da cidade, também possuíam uma lanchonete, na praça principal, a mais famosa da cidade. Também havia na cidade um pequeno centro de quimbanda, detestado pela maioria dos habitantes, tradicionais e cristãos, da pacata cidade que moravam, acusado várias vezes pelo misterioso desaparecimento de várias crianças, todos os anos. São sempre seis crianças, de seis anos, em todos esses últimos anos, duas a cada três meses. Nunca mais apareceram, e todos faziam idéia do que seria, pelas misteriosas e macabras cartas que as famílias das vítimas recebiam:

“Caro senhor Alfredo, asfixiei Paulinho até a morte, então eu o cortei em pedaços. Levei nove dias para comê-lo.”

“Caro doutor Sílvio, degolei Sandrinha e cortei seus membros para moer em partes. Ela morreu virgem.”

E era assim por toda a cidade…vários suspeitos, freqüentadores do centro de quimbanda, foram presos. Mas os desaparecimentos continuavam, aterrorizando os habitantes daquela cidade.
As cartas sempre chegavam, sem endereço, sem selo, sem carimbo…apenas com o nome do pai, ou da mãe da criança desaparecida. Nunca conseguiram chegar ao verdadeiro autor de todos esses crimes, nunca desconfiaram de mais ninguém, nem mesmo os simpáticos palhacinhos que tinham a lanchonete mais famosa da cidade…
Louis, Ciro e Fausto, os adoráveis e gentis, não só alegrava as criancinhas, como a todos na cidade. Os três moravam juntos numa casa enorme, perto de uma floresta, um pouco afastado da cidade. Poucas pessoas já foram lá, e não passaram da sala de visitas.
Duas crianças na cidade eram fanáticas pelos três palhaços, Mirna e Silas, gêmeos, filhos do reverendo da cidade. Duas crianças bem curiosas, que resolveram fugir dos olhos da babá numa pracinha da cidade para ir visitar os três palhaços. Seguiram pela estrada de terra, andaram alguns minutos e chegaram à casa.
Chegando lá, foram recebidos por Louis:
“Olá crianças! Sou Louis…estou sem maquiagem, sem fantasias…mas sou eu mesmo, Tio Louis! Entrem!”
Elas entraram, meio confusas. Chegando na sala de visitas, Louis parou e disse:
“Esperem aí! Vou buscar biscoitos pra vocês.”
Entrou por uma porta que dava para um corredor, no final dele uma estreita porta metálica, com um pentagrama desenhado. Eles não hesitaram em abrir, e entraram. Ficaram intensamente assustados, choraram. Vísceras, ossos, pedaços de pele, membros infantis e um cadáver de criança empalado sobre uma churrasqueira grande.
Logo após chega Tio Louis com um reluzente, enorme e afiado machado, e uma faca de cozinha.

O desaparecimento de Mirna e Silas intrigou a todos na cidade, e levou o reverendo e sua mulher ao desespero. O delegado da cidade iniciou uma intensa busca pelas crianças, com vários detetives e policiais, que investigaram sem parar. Uma pista: as crianças foram vistas pela última vez entrando na casa dos três palhaços.
Que surpresa para eles, estavam abismados…mas a intensa busca continuava.
Invadiram a casa, descobriram o compartimento secreto por trás daquela portinha metálica e descobriram o paradeiro de todas aquelas criancinhas, todas as provas estavam ali.
Prenderam os três, Louis, Ciro e Fausto. Levantaram as fichas, descobriram que eles eram netos de Margô, uma “bruxa” famosa no passado por sacrificar crianças em rituais. Foi absolvida por alegar insanidade mental, logo após foi assassinada por um grupo de cristãos alienados. Deduziram que eles queriam continuar o legado da avó.
Na delegacia, o delegado interroga os três:
-“Quem foi o responsável por tudo isso?”
-“Nós três juntos.” Disse Louis, e os demais afirmaram.
O delegado continua:
-“Vocês são um bando de porcos depravados, desumanos, sujos…a mãe de vocês deveria ter abortado todos…seus desgraçados!”
Louis:
-“Nós fazemos um favor pra essa cidadezinha medíocre…alegramos a todos e agradamos a qualquer paladar com as maravilhosas especiarias da nossa lanchonete. O segredo? Carne fresca. Para nós e para todos. Inclusive o senhor, que reclama mas adorou quando comeu uma parte de Mirna no seu x-burger….”
Um tiro na testa de Louis o interrompe.

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Cremo é idealizador e fundador do Cultura em Peso, Asatrú, amante incondicional da fotografia e da cena underground, na qual vive intensamente há 16 anos. Formado em Redes para Computadores, é ex-vocalista das bandas La Tormenta (Grind) e Dead Bush (Punk), ambas de Minas Gerais. Ouve de Punk Rock a Metal Extremo, tendo como principais bandas na sua playlist Ratos de Porão, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Circulo Activo, Amon Amarth, Elluvetie e Lacerated and Carbonized. Literalmente um Viking que não marca território: o mundo é sua morada. Lê constantemente sobre política, religião, história das guerras e a autodestruição humana que não aprendeu até hoje a viver com as diferenças. Some com a cena ou suma dela mesmo, agora!

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