Outra Chance

 

Perguntas: Marcos Paulo

Respostas: Outra Chance

– E ai Outra Chance, tudo certo? Vocês lançaram recentemente a primeira demo da banda, certo? Como foi o processo de gravação desse material e como tem sido a receptividade do público?

Olá Marco Paulo, tudo certo mano. Pois então, lançamos. A realidade é que demorou mais do que imaginávamos. Não o processo de gravação que foi relativamente bem rápido, já que gravamos ao vivo em algumas horas, mas sim porque estava faltando atitude – a decisão de ir pro estúdio e gravar. Ela veio com uma pressão amiga. Estávamos já há algum tempo sem ensaiar e se encontrando muito pouco, foi quando um amigo nosso (Thiago Tavares), que ajuda organizar os eventos “Uberlândia Hardcore”, deu-nos um empurrão dizendo mais ou menos assim: “Estou travando contato para o “Nunca Inverno” vir tocar aqui, os caras falaram que queriam ter vocês tocando no evento também. Gravem a demo e lancem lá”. Daí ensaiamos num fim de semana, no outro gravamos no estúdio do Cheba (Rodrigo Nep. – Cheder Recs.) e no outro fim de semana tocamos no evento em questão o “3º Hardcore Uberlândia”. O processo de gravação foi tranqüilo, lá no Cheba o ambiente é muito bom, gravamos uma faixa introdução e outras 3. As duas primeiras faixas (“intro” e “peso dos dias”) contaram com a presença de um novo integrante nas guitarras, o João Pires, as duas últimas (“tormento” e “técnica”) foram gravadas pela formação antiga, com o Roberto (“betinho”, atual vocalista) na segunda guitarra. Estamos felizes por finalmente ter saído. A receptividade do público, ao que tudo indica, tem sido boa, alguns elogios e convites para tocar em outras cidades, como Cuiabá e Rio.

– A banda surgiu no fim de 2006 e sofreu algumas mudanças na formação até chegar no line-up atual. O que mudou na sonoridade da banda de 2006 até hoje?

Na verdade em agosto/setembro de 2007 (ainda com outro nome e formação). A principal alteração foi a saída do vocalista João Filho (“niguin”) em 2008. Com sua ausência ficamos em 4 (Paulo-baixo, Michel-bateria, Igor-guitarra e Roberto-guitarra). Este foi um período que de certa forma brecamos muito o ritmo em que vínhamos. Na dificuldade de achar alguém para vocalizar na banda, recorremos a adaptação interna. O Roberto (Betinho) se disponibilizou a tentar cantar. Achamos que deu certo, ele também está curtindo e se adequou bem pra quem nunca havia cantado antes. A partir daí foi só adaptação, criamos muito pouco. Um pouquinho depois o desafio era achar uma segunda guitarra pra suprir o Betinho que havia ido pras vozes. Daí que o Igor conhecia um garoto chamado João Pires, e por saber que ele curtia hardcore/punk convidou-o pra tocar com a gente. Em termos de sonoridade algumas coisinhas foram mudando. A princípio, a proposta era fazer um som mais clássico, o chamado “hardcore oldschool”, ao estilo de muitas bandas da cultura hardcore straight-edge que influenciaram a gente. Mas a gente não só ouvia “oldschool” e no processo de construção das músicas não nos podamos visando manter-nos numa perspectiva mais clássica. Aos poucos, dentro das possibilidades e limites de cada um como “arranhadores de instrumentos”, músicas vieram ganhando elementos que fugiam de certa tradicionalidade. Inclusive, na demo, optamos por não gravar algumas músicas da fase mais inicial. A música intitulada “Técnica” foi a última que criamos e se repararem bem ela tem elementos que fogem bastante do hardcore “clássico”. Achamos que estamos amadurecendo musicalmente, tentando não nos prender em etiquetas musicais (de estilo e forma) e procurando fazer um som de acordo com nossa capacidade de refinamento.

– Muito se fala em “cena” atualmente. Vocês acham que realmente há uma “cena hardcore” em Uberlândia? Ou seria apenas um grupo de pessoas com gostos e preferências em comum?

Legal a pergunta Marco Paulo. Não sabemos se temos uma resposta definitiva para ela, mas arriscaremos algo. Também utilizamos o termo cena entre aspas por que senão dá impressão que o hardcore seria apenas um grande palco, como no teatro, em que as pessoas vestiriam uma fantasia momentânea. A gente acha que, não sabemos se para muitos, mas para alguns, talvez uma minoria, há um sentimento de pertencimento a uma coisa maior, a uma cultura, em que certos valores, sentimentos, continuam como parte de suas vidas ao saírem dos locais de shows (a idéia de alguns dizerem “hardcore como estilo de vida”, a idéia de que “entre gostar de ouvir e viver o hardcore há diferenças” etc). Daí o sentido de falarmos em “cena” ou comunidade hardcore, termo que soaria melhor. Pensamos que talvez não haja uma oposição bem definida entre pessoas com gostos e preferências em comum e uma “cena” (no sentido de comunidade). Se os gostos e preferências em comum inspiram aprendizados, ações conjuntas (como a organização de eventos), espaços de partilha, camaradagem, apoio mútuo, tolerância, compreensão etc talvez aí esteja a idéia da existência de uma “cena”.

– E como vocês avaliam o espaço para bandas independentes na cidade?

Dizer que há falta seria mentira, mas amplos também não são. Os espaços para bandas “independentes” normalmente são os mesmos de sempre (UFU, caso pinte convite; GOMA e outras casas, desde que um grupo disposto se organize, alugue o espaço e arque com os eventuais prejuízos dada falta de público). Muito de vez em quando tem surgido algo em locais mais “diferenciados”. No passado aconteciam tentativas mais ousadas como eventos em praças, quadras de esporte, casas de alguém, ferro velhos, etc. Às vezes surgem tentativas nesse sentido mas muito esporadicamente. O caminho para bandas “independentes”, que são muitas, é tentar criar seus próprios espaços, ajudar a construir junto com outras bandas e pessoas que tenham afinidades. DIY/FVM.

– E o que vocês andam ouvindo ultimamente? Alguma banda nacional que vocês gostariam de indicar aos leitores?

Paulo: Ouço uma porrada de coisas … No momento que leio a entrevista aqui estou curtindo at the drive in (EUA) e verse (EUA). Nacionais que tenho ouvido e indicaria são: clamor, diante dos olhos, fadiga, nunca inverno, sem mais heróis, eu serei a hiena, hurtmold, lacunas, umnavio, pluie …

Igor: Colligere, Confronto, Asunto, AOK, Backsight, Newborn, Miles Away, Pointing Finger, With Honor, Bridge To Solace. Porra, se tem uma banda brasileira para se indicar arriscaria Clamor que o Paulo citou acima e o novo cd do Confronto – Sanctuarium.

– O cenário alternativo/independente em geral sofre uma carência de apoio, espaços para eventos… Não só o hardcore, ou o metal, ou o hip hop… Mas percebe-se que não rolam muitos eventos misturando as “cenas” do alternativo… Na maioria das vezes é só hardcore, ou só metal… O que vocês acham disso? Não seria mais interessante uma maior união desses “movimentos independentes/alternativos”?

A carência de apoio é a própria marca do cenário independente. O lance é correria mesmo. Sobre ser interessante a união/mistura de “cenas” respondemos o seguinte: Talvez sim, talvez não. Pode ser interessante como também não pode. É uma questão muito complicada essa discussão de “cenas” e união porque depende de cada uma das pessoas envolvidas, do nível de compreensão e tolerância mútuas, do respeito, etc, etc. O lance da mistura entre a cultura hardcore e a cultura do metal tem se tornado mais freqüente porque houve uma fusão e incorporação de elementos sonoros do metal muito grande no hardcore. Um exemplo de iniciativa aqui na cidade é o Cerradão Hardcore que, pelo menos nas últimas edições, vem mesclando bandas de hardcore/punk com bandas de metal convocando os dois “tipos” de público para um mesmo espaço.

– Lendo uma entrevista de vocês, achei muito legal o que disseram sobre o hardcore que foi que “o hardcore/punk não nasceu classista, comunista, anarquista, socialista, ateu, ou o que quer que seja. Ainda que algumas bandas o tenham feito conscientemente por este caminho, não foi a regra geral. Pensamos que a única definição possível é a de que o hardcore/punk foi uma criação da juventude não-convencional”. Concordo plenamente! Fale um pouco mais sobre isso.

Pois então, falamos isso porque de vez em quando pessoas na “cena” polemizam – e alguns de nós já agiram assim – sobre o que “é” e o que “não é” hardcore tentando definir uma fórmula. Hoje vemos que o lance é mais complexo do que simples enquadramentos e a única fórmula que parece existir para o hardcore é seu caráter multiforme. Achamos que a idéia do hardcore/punk ter sido uma criação (e ainda hoje ter essa marca) da juventude “não-convencional” – que não se enquadrava e não queria se enquadrar nos padrões do status quo vigente – deixa nosso entendimento dele mais amplo (e não “dogmático”).

– Recentemente rolou a 3º edição do show “Uberlândia Hardcore”, onde rolou o lançamento oficial da demo de vocês. Como foi o show e o evento em geral?

Em geral, apesar da falta de público, achamos que foi bom. Pecou em alguns pontos, como no atraso, mas sabemos que isto foi resultante de uma série de circunstâncias. Os pontos altos do evento, pensamos, foram as apresentações de Dull Kids e Nunca Inverno e a postura de agito do público em todas as bandas, além da forma totalmente independente de se organizar o evento. Ficamos felizes pelo convite e pelo lançamento da demo. Particularmente não apreciamos mto nossa própria apresentação, mas são coisas que acontecem…

– Chegando ao fim da entrevista, vamos ao bate-bola (jogo os tópicos e vocês dizem o que vem à cabeça):

Um filme: Fight Club

Um show: último da banda XCHAMPIONX

Um livro: O Teatro do Bem e do Mal (Galeano)

Uma cidade: Uberlândia “berrrrrrrrrlândia”

Um disco: Incerto (Colligere)

Uma música: bem tocada

Hardcore: expressão

Outra Chance: amizade

Uberlândia: morada

Brasil: “carnaval” hahahahaha

Política: ou politicagem?

Um sonho: imagens que se apresentam ao espírito durante o sono… hehehe

– Pra finalizar, espaço aberto…deixem ae uma mensagem pros leitores e também os contatos da banda.

Valeu! Muito obrigado Marco Paulo pelas perguntas e pelo espaço concedido a nossa banda. Valeu todo mundo que nos acompanha e as palavras sinceras de incentivo. Para quem não conhece nosso trabalho e desejar conhecer basta acessar

http://myspace.com/outrachancehc .

Fiquem firmes! outrachancehc@yahoo.com

Link para baixar a demo: http://www.4shared.com/file/101896137/154aac70/OUTRA_CHANCE_-_demo__2009_-

[OCxHC]

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Cremo é idealizador e fundador do Cultura em Peso, Asatrú, amante incondicional da fotografia e da cena underground, na qual vive intensamente há 16 anos. Formado em Redes para Computadores, é ex-vocalista das bandas La Tormenta (Grind) e Dead Bush (Punk), ambas de Minas Gerais. Ouve de Punk Rock a Metal Extremo, tendo como principais bandas na sua playlist Ratos de Porão, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Circulo Activo, Amon Amarth, Elluvetie e Lacerated and Carbonized. Literalmente um Viking que não marca território: o mundo é sua morada. Lê constantemente sobre política, religião, história das guerras e a autodestruição humana que não aprendeu até hoje a viver com as diferenças. Some com a cena ou suma dela mesmo, agora!

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