Sou brasileiro e não desisto nunca?

 

 

Não agüento mais escutar a frase… “sou brasileiro e não desisto nunca!”, porque ela nos passa a sensação de que o povo brasileiro é realmente assim. Como podemos pronunciar e afirmar com tamanha euforia esse slogan se o que existe nestas terras tupiniquins é um aglomerado de pusilânimes, inertes, conformistas e covardes? Bem, o que posso dizer é que a nossa “marca registrada” repetidas vezes proferida, não passa de mais uma dessas artimanhas subliminares dos detentores do poder para manter a massa em seu estado de inércia social, uma vez que seu efeito psicológico ao ser pronunciado dá a falsa impressão e convicção de sermos fortes e guerreiros, implantando de forma velada em nossos corações e mentes um brio digno de heróis de quadrinho, uma honra e valentia perante a vida que nos aflige capaz de sentirmos fome, sede e não dizer nada, apenas resistir e crer que um dia tudo irá melhorar.
Na concepção do brasileiro ser “guerreiro” não é ir às ruas e gritar ao mundo suas mazelas, não é retomar sua vida para si, não é unir-se uns aos outros e lutar pelo que é nosso e pela liberdade, não é resistir às pressões e repressões do estado, não é questionar a realidade injusta que vivemos, não é… não é. Ser guerreiro para nosso povo é embalar cantos e mais cantos de vitória para “dar força” a seleção brasileira de futebol em copas do mundo, é formar mutirões nos bairros para produzir ruas e avenidas com bandeiras e pinturas exaltando o verde e amarelo da nossa bandeira mostrando todo o patriotismo idiota que de nada vale, é injetar incontáveis milhões em dinheiro nas festas populares ditas culturais e folclóricas, sendo que muitas já perderam sua identidade a muito tempo e servem apenas para aumentar ainda mais o nível de alienação, como o carnaval. Isso é ser guerreiro na visão dos filhos da mãe gentil! mobilizar-se para coisas fúteis, inúteis e superficiais; reclamar dos preços e juros altos, da fome, da violência, da falta de educação, da falta de saúde, do desemprego e mesmo assim essas questões não são motivos suficientes para se criar ânimo e coragem para irmos ao menos a porta de casa e dizer que tudo isso está errado, porém ao menor sinal de festa e jogos este espírito de gladiador orgulhoso surgi como que num passe de mágica e os fortalece e os encoraja como leões. É decepcionante ver o quanto as pessoas são passivas e vulneráveis a esse tipo de manipulação que as engessa anestesiando seu senso crítico.
Quem não se lembra das “personalidades” e “estrelas” que recheavam os intervalos da TV com os recados de superação de dificuldades? Tinha de tudo! Ronaldo “o bolhômeno”, Herbert Viana “da banda Joãozinhos do Sucesso” só faltou uma Susan Boyle brasileira na época. Contudo, entretanto, no entanto caros leitores essas mensagens além de terem um efeito dopante, traz consigo a idolatria e endeusamento de esportistas, músicos, atores e toda essa corja do mundo das “celebridades” os colocando como seres intocáveis, super-heróis e incompatíveis com o erro ou falha.
Não sou um pessimista como muitos devem estar pensando neste momento, muito pelo contrário. A questão é que programas de incentivo ao aumento da auto-estima da população brasileira (ou mundial) veiculados pelo estado, empresas privadas, ONGs com vínculos políticos ou de princípios duvidosos, religiões e afins sempre vêm mascarados com uma mensagem pseudo-otimista, uma vez que estas mensagens são como uma faca de dois gumes que tanto ajudam realmente a você seguir ou inspirar-se em exemplos de superação de algum tipo de situação, como também vêm carregadas de uma penumbra de conformismo misturado ao sentimento de “ok, vou esperar que tudo vai melhorar!”. Nesse ponto podemos observar a delegação de poder dos oprimidos aos opressores através do voto como sinônimo de mudança e melhoria, que sempre busca um messias na política, concomitantemente este nunca chega. Dessa forma cresce cada vez mais profunda as raízes dos princípios dominantes e capitalistas que nos incute a idéia de que esse é o nosso lugar e só posso reclamar e apenas torcer para melhorar. E a melhoria sempre é esperada na imagem de uma personalidade forte (entenda-se um dominador), partido ou grupos elitistas.
Se você visitar para o seu desprazer o site da ABA- associação brasileira de anunciantes, na página inicial vá ao tópico que diz “campanha”, ao clicar encontra-se o texto seguinte:

Desenvolvida voluntariamente pela Lew, Lara (agência que atende à conta institucional da ABA) a campanha “Eu sou brasileiro e não desisto nunca” inicia na prática o movimento pró auto-estima de nossa população, seguindo a perspectiva de que o primeiro passo desse esforço é o de conscientizar, despertar e incentivar o sentimento de orgulho e satisfação nas pessoas a respeito de suas próprias realizações e potencialidades, bem como destacar o efeito de suas atitudes e ações para sua auto-realização individual e para o futuro do Brasil.

São belas palavras não?! O interessante é constatar que eles apóiam e incentivam o sentimento de orgulho e satisfação das pessoas a respeito de suas próprias realizações!!! Mas, espera aí… de quais realizações pessoais os brasileiros devem se orgulhar? De receber um salário de miséria? De que conseguimos comprar o feijão com arroz de hoje e tal vez o de amanhã? De que depois de anos e anos de labuta diária iremos nos aposentar e receber com muita dificuldade a “altíssima” esmola do estado através do INSS? Ou nos orgulhar se nosso time for campeão? é rapaziada… eles realmente sabem como fazer essa engrenagem funcionar, no entanto ela pode parar um dia se você, eu e os outros brazucas que agonizam por essa imensidão de terra afora quisermos, nunca foi fácil, não é e nunca será, mas como diria Emiliano Zapata “prefiro morrer de pé do que viver de joelhos”, o que quero dizer é que o brasileiro não desiste nunca porque nunca tentou. Fiquem com Deus e inté mais ver crianças!!!

Evacuado por: Márcio “Pigmeu”

 

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Cremo é idealizador e fundador do Cultura em Peso, Asatrú, amante incondicional da fotografia e da cena underground, na qual vive intensamente há 16 anos. Formado em Redes para Computadores, é ex-vocalista das bandas La Tormenta (Grind) e Dead Bush (Punk), ambas de Minas Gerais. Ouve de Punk Rock a Metal Extremo, tendo como principais bandas na sua playlist Ratos de Porão, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Circulo Activo, Amon Amarth, Elluvetie e Lacerated and Carbonized. Literalmente um Viking que não marca território: o mundo é sua morada. Lê constantemente sobre política, religião, história das guerras e a autodestruição humana que não aprendeu até hoje a viver com as diferenças. Some com a cena ou suma dela mesmo, agora!

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