Jean – Sepultura em Uberlândia

Entrevista realizada em 06/02/2010
Feita por Laurencce Martins
Com Jean Dolabella (Sepultura)

Fala galera. Meu nome é Laurencce Martins da sessão Death Metal do Cultura em Peso. Há poucos meses pude presenciar um dos shows mais emocionantes e que entrou para a lista dos melhores que já fui. Esse show ao qual me refiro ocorreu em Uberlândia no Jambolada 2009. Estou falando do show do Sepultura, uma das maiores bandas do Brasil e do mundo. E hoje tenho o privilégio de entrevistar aqui uma pessoa que é uma inspiração pessoal pra mim, que além de ser um excelente baterista, tem uma forte característica de humildade. Hoje vou falar com Jean Dolabella.

1 – Fala Jean, como vão as coisas?

Bom demais! Tô naquela quebradeira de sempre! Gravando, dando aulas, produzindo, tocando e também dando mamadeiras, trocando fraldas! Só alegria!

2 – Cara, conta pra gente. Como foi tocar no Jambolada 2009 em Uberlândia?

Foi espetacular! Pra mim foi muito especial voltar a Uberlãndia depois de tanto tempo e poder tocar com uma das maiores bandas do Brasil. Ficamos no hotel Presidente que 18 anos atrás eu estava na porta tentando ver se eu conseguia algum autógrafo de alguém do Sepultura. Foi uma nostalgia incrível! Fora isso tive a oportunidade de passar em frente à casa(que não está mais lá) que meu avô havia construído e que morei toda a minha infância e parte da adolescência. Tive também a oportunidade de rever amigos e andar um pouco pela cidade.

3 – Pelo que sei, você esteve no show do Sepultura em Uberlândia no ginásio UTC, início da década de 90. Você estava no público curtindo a banda que você admirava. Hoje você faz parte da história dessa banda, porém como integrante. Descreve pra gente qual a sensação ou o que passou na sua cabeça quando você se deu conta que você era integrante de uma banda do porte do Sepultura e da qual você é fã desde os primódios da mesma.

Como já falei, há 18 anos eu estava nesse show que foi o primeiro show grande de Rock que assisti. Quando fiz o primeiro show com o Sepultura em 2006, enquanto eu estava atrás do palco esperando a introdução acabar pra subir e tocar, me senti anestesiado por um tempo. Era difícil acreditar que aquilo estava acontecendo. Uma sensação única de euforia e de missão cumprida também. Não ganhei nada na minha vida de graça, nunca ganhei as coisas por sorte, tive que ralar muito a vida inteira pra chegar aonde estou. A sensação de saber que todo esse trabalho me deu o que tenho hoje é muito especial.

4 – Você era baterista do Udora (antigo Diesel). Você percebe alguma diferença na energia (vibração) do público do Sepultura em relação ao público do Udora?
Totalmente. São estilos bem diferentes apesar de terem coisas em comum. O público do Diesel era mais uma coisa de assistir e cantar as músicas, já o do Sepultura a galera é bem mais agressiva, tipo entra chutando a avó mesmo! Hahahaha.

5 – Você já trabalhou com a cantora Ana Carolina, onde gravou duas faixas para um álbum dela em 2007. Muitas pessoas acham que o “metaleiro” deve ser apenas “metaleiro”. O que você acha dessa versatilidade? O que ela te acrescenta?
Bom, primeiro de tudo eu não me considero um “metaleiro”. Primeiro porque eu não preciso de rótulos, segundo porque “metaleiros” seriam supostamente aqueles que só escutam Metal. Eu sou músico e gosto de música. Dentro da música que eu gosto tem um lugar especial para o Metal, mas de forma alguma seria o único estilo que eu escuto. Tanto com a Ana Carolina quanto com vários outros trabalhos que já participei e participo, sempre acrescentam algo novo. Estou sempre buscando coisas novas e isso me faz crescer muito. O Sepultura nunca seria o que é hoje se eles não tivessem buscado música fora do Metal. Não só o Sepultura mas várias outras bandas de “Metal”. Partindo dessa conclusão, o “metaleiro” seria totalmente contraditório se ele falasse que só escuta Metal ou se me criticasse por escutar e tocar outros estilos.

6 – Quais são suas influências pessoais dentro e fora da música?

Pra mim tudo que você vive influencia a sua música. Filmes que eu assisto, o tempo que passo com meus filhos, sair com a minha esposa, conversar com amigos, tudo isso me influencia musicalmente. Agora, falando em música eu escuto de tudo. The Bad Plus, Marsvolta, Miles Davis, Meshuggah. John Mayer, NIN, Queens Of The Stone Age, Aphex Twin, Lenine… Devo ter mais de 300 gigas de música em casa, escuto meu Ipod no Shuffle ou escolho um vinil da coleção que venho fazendo há um tempo. Toda vez que viajo eu compro vários vinis e cds.

7 – No projeto Rockfellas, você fez parte uma banda que tinha um integrante muito adorado pelo espírito “underground”, uma verdadeira lenda viva do metal. Como foi trabalhar com Paul D’ianno?

Paul D’ianno é realmente uma lenda viva. Esse cara já foi no show do Led Zeppelin na época! Impressionante o que ele dividiu com a gente naquela turnê do RockFellas. Foi um prazer enorme ter trabalhado com ele, com o Marcão e com Canisso. Todos com uma experiência incrível de vida! Com certeza mais um momento muito especial pra mim. Todas essas bandas, o Raimundos, Charlie Brown e principalmente o Iron Maiden, foram influências na minha vida.

8 – Jean, você é graduado pela “Los Angeles Music Academy”. Algumas pessoas atribuem talento como sendo um “dom” que o artista tem por natureza, outras já acreditam que o talento é desenvolvido ao longo da vida. Qual é a sua percepção sobre isso?

Acredito nas duas coisas. Tem pessoas que nascem com uma coisa a mais e tem pessoas que ralam muito pra conseguir atingir certos objetivos, mas acho que independente de você ter este “dom” ou não, se não correr atrás não dá em nada. Existem caminhos diferentes pra se tocar a mesma coisa. Alguns demoram segundos, outros anos.

9 – E na sorte, você acredita?

Não. Acredito em trabalho duro.

10 – Você tem um projeto paralelo chamado “Indireto”. Pude ouvir algumas faixas no seu Myspace. Conte um pouco sobre esse projeto e o que te levou a fazer parte dele.

Na verdade eu montei o projeto junto com o Augusto Nogueira, guitarrista e amigo de muitos anos. A gente tem uma história de muitos trabalhos juntos em BH e no Brasil. Depois que cheguei de Los Angeles e entrei pro Sepultura, estava com vontade de montar um projeto pra tocar coisas diferentes sem muitas barreiras. Começamos a tocar e gravar tudo que saía e ao mesmo tempo fizemos alguns workshops e jams com muitos músicos diferentes. Com o tempo percebemos que o nosso lance era só a gente mesmo, mas com algum convidado. Lançamos o primeiro EP junto com a revista Modern Drummer, na qual eu fui capa em 2008, e depois disso não paramos mais. Esse ano de 2010 estamos lançando um disco com 12 músicas e com muitas participações como a Pitty que canta uma versão que fizemos de “Cálice” do Chico Buarque, Andreas Kisser faz um solo em uma das músicas, Felipe Andreoli, Henrique Portugal e alguns outros.

11 – Voltando a falar de Sepultura, você conhece o trabalho da banda antes mesmo de você fazer parte dela, até porque como já foi falado, você, antes de integrante, era um dos fãs. Com o atual trabalho, “A-lex”, o Sepultura mais uma vez mostra a sua capacidade de inovação, misturando piano, violão e usando poucos refrões, além de ter caprichado na parte instrumental. Quais são os aspectos positivos dessas constantes mudanças da banda? E caso haja aspectos negativos, quais são?

Eu acho que isso é relativo. Do ponto de vista do músico, a mudança é sempre muito positiva. Você cresce, respira novos ares e muda a sua música. Do ponto de vista dos fãs, não necessariamente essa mudança é positiva ou aceita como positiva. Independente disso a banda tem que andar pra frente, mesmo que respeite suas raízes ou estilo, é importante essa mudança e a atitude de impor o que você quer falar com a sua música. Se o Sepultura e várias outras bandas não tivessem acreditado e mudado, muita música boa não existiria. Além disso, o Sepultura sempre foi uma banda que acreditou muito na mudança. Apesar de eu não ter conversado isso diretamente com eles, e também, de fazer parte da banda por apenas 4 anos, isso fica óbvio pra qualquer um que já escutou os discos. A diferença de um disco pro outro em todas as fases do Sepultura são enormes. É uma banda que vem sempre procurando novos caminhos musicais.

12 – Você acha que existe diferença entre tocar em festivais e tocar em shows que são unicamente do Sepultura? Qual é a diferença nesses dois tipos de show?

Em shows só do Sepultura você vê muitos fãs da banda e tal, mas tocar em festivais é muito bacana pelo fato de ter muita gente que não necessariamente esta lá pra ver o Sepultura, eu acho muito positivo essa mistura. E também temos a oportunidade de conhecer outras bandas e pessoas. Falando pelo lado técnico do show, a diferença está no tempo que você tem pra deixar tudo pronto, que no caso de ser um festival, tudo é mais corrido.

13 – O Sepultura é uma banda que já está com 25 anos de história. É muita estrada. Vocês pensam em gravar mais quantos álbuns? Existe um limite?

Com certeza é uma banda que já passou por muita coisa, muita estrada mesmo. Não acho que existe um “limite” nem um número definido de álbuns a serem gravados. Deixa rolar!

14 – Quando você está em turnê de um álbum, você já pensa nos projetos futuros, nas composições do próximo álbum, em novas ideias ou foca apenas no atual momento? Como funciona essa dinâmica para a banda?

Estamos sempre focados no momento atual da turnê de um álbum, mas também pensando em projetos futuros. O planejamento é essencial pra tudo acontecer. Alguns riffs acabam saindo aqui ou ali, que dai a pouco, acabam virando uma música.

5 – Jogo Rápido

Um álbum: Songs For The Deaf – Queens of the Stone Age
Uma banda: The Bad Plus
Um livro: Caçador de Pipas
Uma frase: “It’s better to live one day as a lion, than a thousand years as a lamb” ou “É melhor viver um dia como um leão do que mil anos como um cordeiro”.

São muitos…mas esses são os de hoje!

16 – O que você acha da nova safra do metal brasileiro e da música brasileira de um modo geral?

Tem uma galera que curto como o Krisium, Torture Squad e algumas outras falando de Metal, mas eu comecei mesmo a escutar música brasileira em geral depois que fui morar fora. Por vários motivos. Acho que tem muito da nostalgia que você sente em relação ao Brasil, isso te da uma curiosidade incrível de saber mais a respeito de tudo da nossa cultura.

17 – O que você recomenda para as bandas e bateristas que estão começando?

Acreditar muito no que você quer e no que esta fazendo. Planejar e ter os seus objetivos claros também ajuda muito.
Sejam fortes e trabalhem duro!

18 – Deixe um recado para o pessoal que visita o Cultura em Peso e para os bangers de Uberlândia, de Ituiutaba(minha cidade), bangers da região, do Brasil e da América do Sul, que sempre visitam o site:

Ae Cultura e Peso, valeu demais pela força sempre!! Um Abração a todos e muita música!!!

19 – Jean, foi um grande prazer falar com você. Parabéns pelo seu trabalho. Desejo que você continue sempre crescendo e que dê bons frutos ao meu gênero favorito: METAL! Hahaha, abração e tudo de bom.

Mil desculpas pela demora e muito obrigado pela oportunidade!! Valeu mesmo!!
Um abração pra todos!

Contato:
http://www.myspace.com/jeandolabella
http://www.myspace.com/sepultura

 

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Cremo é idealizador e fundador do Cultura em Peso, Asatrú, amante incondicional da fotografia e da cena underground, na qual vive intensamente há 16 anos. Formado em Redes para Computadores, é ex-vocalista das bandas La Tormenta (Grind) e Dead Bush (Punk), ambas de Minas Gerais. Ouve de Punk Rock a Metal Extremo, tendo como principais bandas na sua playlist Ratos de Porão, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Circulo Activo, Amon Amarth, Elluvetie e Lacerated and Carbonized. Literalmente um Viking que não marca território: o mundo é sua morada. Lê constantemente sobre política, religião, história das guerras e a autodestruição humana que não aprendeu até hoje a viver com as diferenças. Some com a cena ou suma dela mesmo, agora!

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