Tamborellos

 

Ano passado um camarada de um chat me mostrou três sons de uma banda que logo me chamou a atenção, e mesmo ela sendo uma banda gaúcha eu não a conhecia e precisou um cara de São Luis/MA me apresentar. No decorrer do tempo fiquei amigo dos caras, joguei bola, comi churrasco entrevistei eles e nunca publiquei e tive a chance de ver dois shows deles.
O tempo passou e a formação inicial dos Tamborellos acabou sobrando apenas o BolÍvar (baixo), ele remontou a banda com Navarro (guitarra), Cristiano(guitarra) e o batera Érico com o próprio BolÍvar acumulando a função de vocalista. Nesta entrevista ele fala do fim da outra formação e da nova assim como dos planos pro futuro.

1-Bolívar, estávamos bebendo juntos em Alegrete quando ficaste sabendo que o Kako iria sair da banda. Conta pra galera como reagiste a isso.

Bolívar. Foi um choque muito grande. Eu vinha cheio de projetos pra 2011,como álbum e shows em outros estados (que já estavam encaminhados).

Perguntei ao Kako, por email, se ele poderia fazer um show em tal data e sua resposta foi “precisamos conversar”. Ali eu já vi tudo.

Como já tinha percebido falta de motivação do Jonas nos últimos ensaios e shows, resolvi perguntar a ele e ao Bento se continuariam. Fiz isso antes de voltar a Porto Alegre. A resposta de ambos foi a que eu já previa: sem a formação original completa, eles não se pilhavam em continuar.

Paciência.

Se for pra continuar fazendo de má vontade, é melhor que passe a função pra quem quer.

2-E passado esse choque inicial, existe alguma mágoa de tua parte em relação a eles?

Bolívar. Não. Fiquei realmente incomodado. É muito frustrante não poder concretizar projetos que tu consideras importantes por desistência de outros.

Mas tivemos uma conversa entre os quatro e resolvemos todas as diferenças.

Tenho muita consideração por todos eles.

Mas, com interesses diferentes, o afastamento entre nós acabou sendo natural.

Vez ou outra ainda bebo umas com o Kako ou o Jonas, mas o Bento eu não vejo desde a reunião, em janeiro.

Tamborellos (ainda sem o Cristiano) no show do Psycho Carnival Tour, dia 12 de março

3-E como foi a decisão de cantar e colocar dois guitarristas?

Bolívar. Sempre gostei de explorar o máximo possível os arranjos, mas por achar cinco pessoasuma formatação muito difícil de conciliar as ideias entre todos, optei por começar a banda só com uma guitarra, já que o Kako não toca.

Eu passar a cantar foi por necessidade mesmo. Isso me limita bastante como baixista.

4-Além de te limitar como baixista, cantar e tocar te impede de ser tão performático como o Kako. Acha que a gurizada sente muita falta disso?

Bolívar. Definitivamente SIM.

O Kako é extremamente performático no palco, e isso torna o show muito mais pilhante, faz a gurizada cantar junto e tal.

Além disso, ele é VOCALISTA.Eu sou baixista que canta. São coisas diferentes. Sou bem menos técnico que ele.

Mas não vamos ficar chorando sobre a cerveja derramada ou a costela queimada. A banda continua.

E eu já ouvi bastante gente dizendo que acha que um vocal mais rasgado combinaria mais com o som da banda.

Essas eu acho que vão preferir nosso som agora.

Se perde em vocalização, mas se ganha em peso e em riffs.

Espero que a gurizada continue curtindo.

5-Navarro, assim como o Ederson, sempre foste um cara presente nos shows e conhecedor das músicas. Estavas preparado para esse tipo de convite ou te pegou de surpresa?

Navarro. Fui fã da banda desde a fundação e a ideia de tocar com eles caiu de paraquedas no meu cotidiano.

Quando a formação inicial veio a ruir, recebi a noticia por amigos em comum com a banda, no entanto, não me imaginava dando continuidade ao trabalho de quase quatro anos que vinha sendo concretizado.

No Gre-Nal de Rivera, no início do ano, fiquei sabendo pelo Grilo que o Bolívar queria falar comigo. Imaginei que essa conversa pudesse ter todo o tipo de caráter possível, menos que se tratasse desse tipo de convite.

Enfim, o Bolívar acreditou no meu potencial e isso, agregado à nossa amizade pessoal, o levou a me convidar pra tocar.

Não sei ao certo se eu estava preparado ou se o convite me pegou de surpresa, mas hoje eu estou aí pro que a banda precisar.

6-Tu já tinhas tocado em outras bandas, mas creio que nenhuma com uma proposta tão séria quanto a Tamborellos. Como está sendo essa experiência?

Navarro.Está sendo uma experiência gratificante, acima de tudo.

Pela primeira vez estou tendo a oportunidade de tocar com músicos competentes, podendo dessa forma, desfrutar de bons resultados (sejam eles individuais ou coletivos).

Lógico que para mim, é uma tarefa árdua, pois nunca havia assumido esse tipo de compromisso e tenho minhas limitações, no entanto, aos poucos vou buscando uma evolução e conciliando o “trabalho” com o lazer.

7-Levas os treinos de muaythai e boxe bastante a sério, inclusive competindo. Como está sendo conciliar isso com a banda, além dos compromissos convencionais de faculdade e trampo?

Navarro.Eu acabo priorizando algumas das atividades, sem me desvincular de nenhuma das outras.

Em 2010, treinei muito e participei de duas competições importantes (Copa RS e Campeonato Gaúcho de muaythai), conseguindo ser finalista das duas e conquistando o campeonato gaúcho.

Com a minha entrada na banda, acabei reduzindo a frequência nos treinos, e como essa função de ensaios e show deixa o cara mais vulnerável ao álcool, inevitavelmente o meu rendimento nos treinos caiu.

Mas é tudo questão de tempo.

Depois que passar essa fase de composição de músicas novas e gravação, terei mais folga e voltarei a competir.

8-Não se tem notícias sobre a banda desde o show do PsychoCarnival Tour, dia 12 de março. O que tá rolando desde então?

Bolívar. Como os ensaios pra aquele show foram cheios de imprevistos, decidimos que, após a correria toda, iríamos priorizar músicas novas. Desmarcamos alguns shows e decidimos compor e gravar nesse primeiro semestre.

9-E como tá se dando o processo? Já começaram as gravações?

Bolívar. Estamos com a maioria das músicas prontas, só precisando de alguns ajustes. A partir de então, começaremos as gravações. A maior dificuldade no momento é financeira. Temos integrantes desempregados e, todos sabem que essa brincadeira não é barata. Precisamos manter a qualidade das gravações anteriores.

10-A ideia é lançar um álbum ou largar os sons na rede, como fizeram com tudo gravado até agora pela banda?

Bolívar. Lançaremos um EP com seis músicas, chamado Ódio Eterno Ao Futebol Moderno, dando ênfase a um assunto sobre o qual eu sempre quis tocar, mas nunca pude, devido ao fato de o Kako não gostar de futebol.

Considero fundamental seguir escrevendo apenas sobre o que vivenciamos.

Atualmente, nada está tão presente nas nossas vidas como o futebol.

11-Tocaste num ponto importante. Com essa enfatização do tema futebol, vocês não temem ficar estigmatizados como banda de Colorados, já que vocês dois são de torcida e o Cristiano também é torcedor do Inter?

Bolívar. Boa questão.

Não é algo exatamente que eu temo, mas sempre que eu posso, tento esclarecer: NÃO SOMOS UMA BANDA DE COLORADOS.

Acontece que, pelo fato de tanto a banda quanto o Inter serem coisas bastante importantes em nossas vidas, eu e o Navarro manifestamos o amor pelas duas através da torcida.

Mas todos os fãs de futebol, principalmente os torcedores de verdade, são muito bem vindos em nossos shows.

Temos amigos em várias torcidas do Brasil (inclusive algumas inimigas). A amizade pessoal sempre vai prevalecer.

E se o Érico fizesse uma faixa azul e preta com o nome da banda e levasse pro Olímpico, eu iria achar muito afudê. O nome Tamborellos pode ser vinculado a qualquer torcida.

Por sinal, uma gurizada da barra do Pelotas já manifestou interesse em nos convidar pra tocar em evento da torcida.

E vez ou outra, camisetas nossas nas cores do Grêmio são vistas em meio à Torcida Jovem.

Navarro. Eu acho que é inevitável sermos estigmatizados como banda de colorados, e isso não me incomoda nem um pouco, por questões óbvias.

Respeito todos os torcedores que apreciam nosso trabalho, mas não vou me preocupar com esse rótulo.

Como o Bolívar já mencionou, a gurizada tem liberdade pra relacionar a Tamborellos com qualquer time/torcida.Acho bem interessante, porém, eu jamais tocaria em território de Grêmio.

Temos vários gremistas que nos acompanham. Essa preocupação, se tiver que existir, deixo para eles e o Érico.

12-Quer dizer que integrantes das torcidas do Grêmio colam nos shows? Isso nunca causou tumulto?

Bolívar. Em nossos últimos shows no ano passado era comum ver nego envolvido tanto das organizadas quanto das barras do Grêmio e do Inter. O que é da pista se resolve na pista. Não é levado pros nossos shows.

É preciso saber separar. Quem gosta de brigar com torcedores rivais, que faça isso na pista.

Navarro. Os torcedores de Grêmio que comparecem em nossos shows compactuam com a ideia anti-racismo que está presente em nosso cotidiano.

Não tenho a pretensão de sair na mão com nenhum gremista que aprecie nosso som, pois vários camaradas do outro lado são de fé.

No entanto, jamais irei dissimular meu desprezo pelo Grêmio e quem quiser cobrar postura que compareça nos shows e venha trocar idéia.

13-Voltando ao EP, qual a previsão de lançamento?

Bolívar.É sempre complicado prometer material quando ele depende de uma verba que ainda não temos, mas eu espero de verdade que não passe de outubro.

Até julho pretendo divulgar dois sons.

14-Uma forma de angariar verba não seria fazendo alguns shows? Deve ter gente sentindo falta depois de tanto tempo sem mostrar as caras.

Bolívar.Sem dúvida, shows sempre dão uma grana que colabora nas gravações, mas minha experiência com bandas anteriores mostrou que não compensa fazer um show atrás do outro sem alguma novidade.

Tiramos do repertório algumas músicas antigas. Isso faria com que metade do nosso set fosse de músicas novas que ninguém conhece.

Isso não pilha a gurizada.

Acho válido apresentar uma música ainda não gravada em um show, mas todas de uma vez vira bagunça.

Só que eu não descarto a possibilidade de um ou outro show antes do EP. Tá sempre rolando convite dos nossos amigos da Sub Monsters e da Boomerangs.

Mas a banda sempre vai priorizar qualidade em relação a quantidade. Antes um show afudê do que dez meia boca.

15-O jeito é aguardar mesmo. E com o EP na mão, pretendem voltar ao ritmo de shows de 2009 e 2010?

Bolívar. Sim. Recuperar o tempo “perdido” e tocar no máximo de lugares possível. Porto Alegre, outros estados e, principalmente, interior do RS.

Soube recentemente que o clássico Putz Bar, do meu irmão Jax, de Nova Petrópolis, fechou. É uma notícia realmente triste. Mas isso não nos impede de continuar dividindo o palco com a PiazitosMuertos. É sempre muito bom tocar com amigos, e essa é uma gurizada que nos acompanha há anos.

Também temos um compromisso de tocar em Campinas, interior de SP. Um brotherzãocoloradaço, o Will, tá se mudando de lá pros EUA no início do ano que vem. Antes disso, temos que tocar lá. Aí já aproveitamos e fazemos outro show em Atibaia, onde tem uma gurizada de fé pra caralho.

Fora isso, vamos aonde nos chamarem. Nada se compara a tocar na nossa cidade, mas somos muito gratos ao interior, de uma forma geral.

16-Bom, muito obrigado pela entrevista. O espaço fica para aquele papo clássico de considerações finais.

Navarro. Enfim, gurizada, sou mais um na multidão, luto pelo fortalecimento do underground em qualquer lugar que seja, independentemente de arquibancadas ou não.Nem sempre o politicamente correto é o correto a seguir, mas a cultura de rua irá prevalecer. Não se deixe levar por visual, faça a sua seguindo sua própria cabeça.Não dependa de cartilha de rolê.Tenha seu próprio pensamento ideológico.Não existe caminho de volta pro que já se foi.

Bolívar. Em nome da banda eu agradeço mais uma vez pelo espaço cedido pelo Cultura em Peso e por todos os responsáveis pelo blog.

Tu, Prude, é um cara que, no contrafluxo de todo esse processo de tornar as músicas cada vez mais descartáveis que tá rolando graças à internet, corre pelo certo e faz de tudo pra divulgar as bandas em que tu acredita.Continua assim que tu é peça rara, meu.Tu, o Kanela e o Daniel Villaverde deveriam servir de exemplo a essas novas gerações de punk rockers do Estado.Quero mandar um salve também pra toda a gurizada do interior, do Paraná, de São Paulo, do Rio, de Minas e de Pernambuco, lugares onde temos maior contato.Aos torcedores do Brasil inteiro: LUTEM CONTRA ESSA PALHAÇADA QUE TÁ VIRANDO O FUTEBOL MODERNO.E fiquem de olho no nosso mais pêis. A qualquer hora pode ter novidade por lá.

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Cremo é idealizador e fundador do Cultura em Peso, Asatrú, amante incondicional da fotografia e da cena underground, na qual vive intensamente há 16 anos. Formado em Redes para Computadores, é ex-vocalista das bandas La Tormenta (Grind) e Dead Bush (Punk), ambas de Minas Gerais. Ouve de Punk Rock a Metal Extremo, tendo como principais bandas na sua playlist Ratos de Porão, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Circulo Activo, Amon Amarth, Elluvetie e Lacerated and Carbonized. Literalmente um Viking que não marca território: o mundo é sua morada. Lê constantemente sobre política, religião, história das guerras e a autodestruição humana que não aprendeu até hoje a viver com as diferenças. Some com a cena ou suma dela mesmo, agora!

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