Underground e Mainstream

 

Sempre que tocamos no assunto underground e mainstream muitas discussões e polêmicas são geradas, no entanto porque isso acontece? Bem, o que se sabe é que o termo underground surgiu nos anos 1960 com a contracultura, movimento intelectual, libertário e artístico que colocava em xeque valores, princípios e condutas centrais da cultura ocidental, como a tecnocracia, a racionalização, as práticas abusivas e desumanas do capitalismo etc. A palavra em seu sentido literal significa subterrâneo, subsolo ou submundo. No sentido figurado a expressão ou o termo refere-se a uma cultura marginal, independente do reconhecimento oficial, estatal e da massa, pois não tinha vínculo com a cultura popular massificada alicerçada na banalidade, no conteúdo limitado, na produção enlatada e alienada, na criação de cunho artístico chulo e manipulado pelas mídias dominantes. Em outros séculos existiram movimentos contraculturais (não com essa nomenclatura) antagônicos aos sistemas vigentes de cada época, porém como já foi dito, o sentido da palavra underground nessa concepção de mundo opcional só foi empregada em meados do século XX de modo a se fixar no vocabulário dos grupos alternativos do contexto sócio-cultural atual.

No underground está o que não é mainstream. Estão os projetos, os conceitos, as opiniões e idéias que nunca seriam lançadas, apoiadas, financiadas ou patrocinadas pelas mídias de massa, já que a cultura underground em sua essência é “carregada” de subversividade, visceralidade, críticas ácidas, originalidade, produções orgânicas, contestações, ideologias contrárias ao imperialismo dominante entre outros pontos mais. Com isso cria-se uma barreira no ingresso das artes e filosofias da produção cultural underground no mundo mainstream, porque quem controla e veicula tudo (dominantes) na esfera popular não tem o interesse de despertar o senso crítico dos sujeitos e nem fazê-los pensar, pois o objetivo dos mega empresários capitalistas é manter as pessoas sob influência e controle, assim ditam moda, gostos, tendências, atitudes, condutas sociais chegando ao ponto de moldar personalidades através do poder midiático. O resultado de tudo isso é o consumismo e o modismo que o mainstream submete as massas a aderirem de forma cega, criando gerações e mais gerações de idiotas alienados que pastam todos os dias de suas miseras vidas os excrementos audiovisuais oferecidos pela “cultura” pop ou popular.
O mainstream seria a contraposição do underground, ou seja, o oposto dele. É o meio onde se encontra o que é familiar as massas, o que é comum ou usual, o que tem relações e laços comerciais como ponto principal, é aquilo que está disponível ao público, é o mundo pop, é o lugar-comum, é a mecanização e artificialidade dos segmentos sócio-culturais. Neste campo de ilusões é fácil detectar a cópia barata da cópia, a falta de originalidade, a banalidade e futilidade artística (se é que se pode chamar de arte), as personalidades e estilos modistas de butique, aquilo que é passageiro, a alienação embutida de forma escrachada, a falência do intelecto e o centro de tudo que existe lá, que é o dinheiro. A palavra mainstream em português significa corrente principal (Main = principal. Stream = fluxo, corrente), dessa forma fica claro o seu emprego para nomear o “Pop World”. Mas será que por ser considerada a “corrente principal” o mainstream nos fornece qualidade, o melhor, a problematização da vida e do mundo ou deixa-nos a mercê do lixo sócio-cultural humano? Essa eu não vou responder por ser muito complexa a resposta (rsrsrs).

Mesmo com os meios de comunicação em massa manipulando e selecionando os “peixes” que lhe convêm do cenário sócio-cultural e artístico, o underground sempre esteve vivo e resistiu a essa exclusão por parte deles, já que os ideais das culturas alternativas são fortes e verdadeiros em sua maioria. Nesse contexto surgiram incontáveis produções independentes, de tal forma que hoje existem várias editoras, sites, blogs, selos, revistas, zines, gravadoras, centros culturais, espaços, casas de eventos e shows que levam consigo o conceito de underground. Mas nem tudo são flores, porque muitos aproveitadores acabam rotulando-se de underground para tirar proveito da situação. Como pode alguém tirar proveito de um movimento que já não possui tanta estrutura e força? Enganam-se quem pensa assim! Com o advento da internet o mundo entrou em uma era de produções caseiras de qualidade á baixo custo (não só musicais), fazendo com que a indústria fonográfica entra-se em declínio acentuado, reconfigurando totalmente a forma de lidar com as artes (principalmente a musical). Na atualidade os melhores nichos para achar uma banda “bola da vez” estão no underground, pois ele ficou tão forte com o surgimento da internet que muitas bandas consideradas “grandes” se emanciparam de gravadoras de renome e começaram a lançar trabalhos independentes, assim como ficou bem mais fácil para bandas iniciantes lançarem seu primeiro trabalho. No entanto é nesse caldeirão de oportunidades que se transformou o underground, onde encontramos pessoas que só usam o rotulo underground para beneficiar-se. Basta você observar como se tornou comum vermos bandas do nipe dessas da MTV se dizendo underground ou que vieram de lá, mas totalmente desconformes e em contradição com a essência da coisa. São bandas que buscam apenas o sucesso comercial e financeiro, assinam com gravadoras do mainstream que hoje bebem na fonte “underground”, já que nesse meio é bem mais fácil conseguir picos para tocar e divulgar o trabalho. O mesmo tipo de procedimento acontece com selos, bares, casas de eventos e shows que utilizam a fórmula “sou underground” para lucrar, promovendo eventos com bandas do underground e cobrando valores de mainstream nos ingressos, fugindo da proposta de fazer uma cena livre das amarras capitalistas. Cada vez mais percebo na cena underground algumas casas de show criando uma elitização dos seus eventos, cobram caro, logo só freqüentam os eventos quem pode pagar alto e quem pode é quem tem dinheiro, excluindo dessa forma a rapaziada da periferia ou de poder aquisitivo menor. Consigo até enxerga uma espécie de mainstream do underground, onde algumas bandas tocam em local “x” e outras em “y” de acordo com suas “características”. Pra elite que agora freqüenta o underground por ser cool (na concepção deles), tudo isso não passa de aventuras joviais, curtição, bebedeira, drogas, entretenimento, diversão, sexo e afins (estes “itens” fazem parte da cosia pra alguns, mas não é só isso). Não têm a mínima idéia do que seria uma cena criativa, intelectual, que gere o conflito do questionamento na sociedade visando sua melhoria. Esses usurpadores encaram as coisas, o mundo, a vida e os valores da mesma forma que a velha e clichê sociedade, o diferencial é somente os ambientes que freqüentam e seus visuais “estilosos” e passageiros. As centenas de bandas que surgem a todo instante para e somente com a intenção de fazer o maldito sucesso comercial e utilizam o circuito independente ou underground como plataforma para o córrego “principal” da música (mainstream), nunca sentirão e entenderão o que significa de verdade essa janela da expressão livre humana denominada underground, porque suas cabeças e corações não habitam esta dimensão, já que buscam e semeiam a superficialidade e desespero do paradigma capitalista.

 

 

Apesar de ser um crítico ferrenho aos que usam de má fé o underground como ferramenta de ascensão comercial e elevação do ego e do status, também não consigo entender os mais radicais, extremistas e conservadores do underground. Geralmente são pessoas que preferem desenvolver seus trabalhos e idéias da forma mais precária possível alegando ser isso o verdadeiro underground, porém uma coisa não tem haver com a outra. Como todos bem sabemos a diferença maior entre o mainstream e o underground está na questão estrutural dos eventos, já que um detém maior poder econômico para usar e abusar de bons equipamentos e locais para realização de suas atividades, porém sempre há um preço á pagar para poder ter acesso a eles, e não preciso explicar o porquê disso, pois vocês já sabem de có. Em contra partida temos o underground que geralmente não dispõe de recursos suficientes para executar de forma totalmente satisfatória seus eventos, mas o diferencial está exatamente aí, mesmo sem uma base estrutural boa ou que supra as necessidades dos que desenvolvem as atividades, os eventos acontecem e alcançam seus objetivos. Coloquei essa questão em xeque porque assim como o mainstream está tendo acesso ao underground, o underground também está tendo ao mainstream (de forma bem tímida ainda). Opa!!! Como assim, se vender? Outro dogma dos “homens das cavernas do underground”! o que viria a ser um vendido? Tocar em uma estrutura melhor? Não mesmo! Muitas bandas aclamadas, exaltadas e até idolatradas pelos mesmos radicais extremistas e conservadores do underground tocam em eventos de grande porte mundo a fora, Contudo nunca se venderam! Como explicar essa façanha? Existem propostas e propostas para se tocar em grandes eventos e festivais ao redor do planeta, existem propostas e propostas para assinar com selos e gravadoras, existem bandas e bandas em toda parte e são elas que fazem as escolhas. Se você almeja fama, sucesso e dinheiro como objetivo, mesmo que para isso cedas aos pedidos (imposições) de gravadoras para fazer um som “assim ou assado” por se mais vendável e aceito ou escrever letras sobre movimentos pélvicos, estupidez piegas dos emos ou qual tipo de champanhe que você toma com seu casaco de peles ao lado da sua Ferrari a escolha é sua e somente sua, basta sua banda ter uma oportunidade ou um convite para cintilar de tanto brilho. Mas se sua finalidade é outra, usa-se o “não” como resposta aos pedidos dos magnatas da música, no entanto pra nossa alegria e sanidade mental existem em vários países gravadoras e selos de médio á grande porte, mas que realmente carregam consigo a idéia e o espírito do underground, apoiando, produzindo, estruturando e respeitando a liberdade de expressão das bandas (não só na música, mas em outras áreas também encontramos esse apoio). O grande problema é que no Brasil esse movimento de maior porte em apoio a bandas underground ainda é raro e escasso, sem citar que a cena brasileira é uma das mais resistentes e conservadoras nesse sentido.

 

 

Não é preciso fazer voto de pobreza ou se negar a tocar em locais bem mais estruturados para ser integrante ou construtor de uma cena alternativa, porém há muita prostituição ideológica e falsos na cena, que usam o rótulo underground para beneficiar-se, suas escolhas é que vão dizer quem ou o que você é. Têm-se reclamado durante muito tempo por não existir oportunidade para mostrar produções independentes e alternativas em mídias de massa, mas esta quando surgir temos que agarrá-la sem pestanejar, pois se o objetivo é atingir a maioria das pessoas com idéias reflexivas, de contestação, libertárias etc. então vamos até elas! Nada melhor do que usufruirmos da “menina dos olhos” (televisão e rádio) deles para expandir as concepções de vida, arte, filosofia que se ocultam nas sombras do submundo das metrópoles, contudo mantendo sempre a essência e seus ideais.

O anonimato, a misantropia ou o ócio produtivo na maioria das vezes cria coisas absurdamente boas e inovadoras, porém uma idéia quando não é posta em prática ou exposta aos olhos alheios se limita apenas a uma idéia sem função, sem vida ou valia alguma. Por isso devemos usar as “armas” dos dominantes como contra-ataque equivalente, se a televisão, o rádio e diversos meios de comunicação em massa são usados para manter o controle, por que não os usarmos para alertar as pessoas disso? Obviamente não é tão simples assim, mas não é impossível! A real situação atual é essa, o underground está subdivido em “níveis” que mais parecem mainstreams dentro do underground, como também podemos encontrar um pouco (vestígios) de underground em alguns segmentos do mainstream, mas todo cuidado é pouco para não se intoxicar com esse meio traiçoeiro. Enquanto não aparece ninguém disposto a abrir as portas para a verdadeira cultura underground, iremos continuar criando nossos próprios meios e vias de resistência e fodam-se as propostas e convites de grandes produtores capitalistas que tentam deturpar os objetivos, as idéias e a essência do underground. Não me entendam como um oportunista de plantão a espera de um pote de ouro no fim do arco-íris, mas não podemos mais ficar enclausurados trocando informações apenas em nosso meio e sim expandi-lo, pois muita gente anseia por isso, porém não sabe como chegar ou conseguir. A cegueira que a alienação e a ignorância causa nas pessoas não mostra meios delas se livrarem ou buscarem a “cura”, por isso devemos usar várias estratégias de luta para alcançar o máximo de mentes possíveis. Criar zines, informativos, jornais, artes, panfletos, pichações, Grafites, músicas e uma vasta produção cultural subversiva, alternativa, de alerta ou de contestação sócio-política para ser mostrada e exposta apenas para membros do mesmo movimento, é o mesmo que vender gelo pra esquimó, pois todos (ou a maioria) ali já detêm essas informações e o conhecimento sobre as questões mostradas. Com isso, quase tudo é valido para se chegar o mais próximo possível de uma sociedade livre (de verdade), crítica, questionadora, auto-gestionária e emancipada das garras elitistas e manipuladora dos dominantes.

Dessa forma vou ficando por aqui com este tema tão controverso e polêmico, no entanto ele deve ser debatido e comentado para aperfeiçoá-lo. A minha opinião é esta, sei que muitos concordam e outros tantos discordam. Isso é a vida, o mundo, as diferenças, elas sempre devem existir (quando não visam o mau alheio) para entrarem em “conflito” e gerarem uma terceira que na maioria das vezes é a resposta. Espero pessoal que vocês se conscientizem que pagar 100, 200, 300 contos e às vezes até mais para ver uma banda ou evento gringo (sem nacionalismos) em geral, parece ser mais aceitável e normal no entendimento de alguns (maioria) do que ajudar a fortalecer o underground local pagando 10, 15, 20 pilas para sacar eventos nossos e ainda acham um absurdo… pensem nisso e até a próxima!!!

Detonado por: Márcio “Pigmeu”

 

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Cremo é idealizador e fundador do Cultura em Peso, Asatrú, amante incondicional da fotografia e da cena underground, na qual vive intensamente há 16 anos. Formado em Redes para Computadores, é ex-vocalista das bandas La Tormenta (Grind) e Dead Bush (Punk), ambas de Minas Gerais. Ouve de Punk Rock a Metal Extremo, tendo como principais bandas na sua playlist Ratos de Porão, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Circulo Activo, Amon Amarth, Elluvetie e Lacerated and Carbonized. Literalmente um Viking que não marca território: o mundo é sua morada. Lê constantemente sobre política, religião, história das guerras e a autodestruição humana que não aprendeu até hoje a viver com as diferenças. Some com a cena ou suma dela mesmo, agora!

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