Andre Comix e o retorno a cena

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1- Você pode nos contar como tudo aconteceu, o que te levou a ser condenado?

Estava consumindo muita cocaína na época, fora da realidade sendo bitolado por essa substância que o estado faz questão que Você use para te manipular! Sempre fui um indivíduo visado por órgãos de repressão do estado, em uma cidade como esta (Itapetininga/SP), pacata e conservadora. Os fatos: Estava trabalhando como moto-táxista e estava com um passageiro portando dois gramas de crack, e o detalhe é que eu não sabia… Os policiais fascistas o pressionaram para saber onde o mesmo havia adquirido a droga, ele disse que havia adquirido de mim, para não incriminar o traficante. Resultado: Fui a júri, e condenado há 5 anos de reclusão! O detalhe é que prenderam em minha residência, diversos materiais subversivos, e fizeram questão de expor para o Ministério Público, onde fui rotulado de Anarquista e baderneiro! Isso provavelmente pesou contra mim, no momento da decisão do corpo de jurados, para me condenar! Sempre procuram diversos motivos para me incriminar, mas sem sucesso… Já havia tentado me incriminar por roubo, furto, formação de quadrilha, danos ao patrimônio público e etc… Mas, enfim… Só reconheço um tribunal capaz de julgar-me: Eu próprio! O veredicto de qualquer outro não tem nenhuma importância para mim.

 

2- Quanto tempo voce ficou em regime fechado?

Dois anos em regime fechado e mais um ano e dois meses no regime semi-aberto.

 

3- Antes de entrar lá qual era a tua visão? O que você esperara que fosse la dentro?

A visão sempre foi pessimista em relação ao sistema prisional, arcaico e falido, sem nenhum propósito, apenas de enriquecer cada vez mais o e$tado! Uma verdadeira fábrica de dinheiro, onde se lavam milhões, com aquela velha hipocrisia que o preso custa R$ 1.800 reais aos cofres públicos, sendo que na realidade não é isso que se pode presenciar. Alimentação, vestuário, educação, saúde e estrutura são tudo escasso!  O sistema faz questão de construir mais presídios, e quanto mais presos e presídios dentro do estado, mais o dinheiro gira nas mãos dos corruptos, um verdadeiro ciclo vicioso!

 

4- Qual a sua visão hoje, depois de ter saído de lá?

Revoltante! Perceber que os jovens, em sua maioria, estão alienados e aliados ao sistema obscuro e paralelo, onde existem leis e regras rígidas, bem semelhantes ao que vemos no cotidiano, só que de uma forma mais radical. Jovens que muitas vezes em nome de um consumismo fútil e egoísta, são vítimas das mazelas sociais ou vítimas desse sistema desigual e excludente!

5- Como era o dia a dia? o que você fazia para ocupar o tempo?

Fiz um processo de seleção para Monitor de Sala de Aula, em uma organização que cuidava da parte educacional dos “reeducando”, fui aprovado e lecionava para 6° ano (antiga 5ª série), no período da manhã e 7° ano (antiga 6ª série), no período da tarde. De segunda a sexta. No mais era ler livros, escrever e praticar algumas atividades físicas, como caminhada e levantamento de peso!

 

 

 

 

6- se sentir a vontade pra falar, tu sofreu algum tipo de pressão lá dentro? Seja de facções ou mesmo dos carcereiros?

Sim! Ser pressionado é uma constante, seja na sua casa, na rua, no trabalho ou no presídio! Não existem soluções fáceis, para o mal-estar que as pressões da vida provocam! Só pelo fato de ser obrigado a cumprir regras e normas de conduta, muitas vezes fascistas e discriminatórias, já é bastante desagradável!

7- Como é o “clima” no presídio?

O Clima é tenso, principalmente entre agentes do sistema prisional e os “reeducando”, é uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento! Sempre procurei agir com urbanidade e respeito, mas sem abaixar a cabeça e se humilhar.

8- Com quantas pessoas você dividia cela, e como era o ambiente entre vocês? Quais os motivos dessas pessoas estarem la dividindo cela com você?

Várias pessoas, 15,20 ás vezes 30! Em uma cela que comportam apenas 12! O motivo é que, como citei na questão três: O sistema faz questão de construir mais presídios, e quanto mais presos e presídios dentro do estado, mais o dinheiro gira nas mãos dos corruptos, um verdadeiro ciclo vicioso!

9- Como tem sido a reintegração “social” para você? Tem sentido algum tipo de pré-conceito?

Sou anti-social, e sempre sobrevivi às margens da sociedade. Preconceitos existem em todos os tentáculos da sociedade, não apenas com os presos!

10- Conheceu mais alguém lá dentro que faz parte da cena?

Não! Ouvi falar de alguns “punks” que estavam presos, devido às guerras de facções em São Paulo, mas não cheguei a conhecer nenhum!

11- Em algum momento se sentiu esquecido lá dentro?

De maneira alguma! Sempre recebia cartas e até visita do meu Pai, nos finais de semana!

12- Existe corrupção dentro do sistema carcerário?

Sim, como mencionei na questão três!

13- Qual foi seu maior aprendizado dentro da cadeia?

Ter paciência, muita paciência! E resolver os problemas com equilíbrio!

14- Como a cena tem te ajudado a ser reerguer?

Com muita amizade, apoio e confiança!

15- E a Recusarmada, voltou? Tens algum projeto para este ano ainda?

Não! A [email protected] não volta mais, foram 10 anos de resistência e persistência! Tenho projeto sim, em breve estou começando a ensaiar com a nova banda!

16- Quais os projetos que você tem para este ano e para o próximo em relação a cena?

Para esse ano, começar a ensaiar com a nova banda, voltar a editar um zine, participar de uma coletânea de poesias/putoesias beneficente ao espaço Infixo e organizar algumas gig´s em Itapetininga. Para o ano que vem ainda não planejei nada!

 

17- Jogo rápido:

Amigos: Existem companheiros ou conhecidos. Amigos é utopia!

Família: Somente meu Pai e minha falecida Mãe!

Cena: Por uma cena forte e coesa!

Presídio: Quebrar todos!

Crime: Nem pensar… Nada de se submeter a um sistema paralelo e obscuro!

Ruas: Roles e Protestos!

Drogas: Hoje em dia nem cigarro fumo mais!

Sociedade: Preconceito, hipocrisia, desigualdade, corrupção e charlatanismo.

4 bandas nacionais: Difekto, Rot, Subterror e Nuclear Frost

4 bandas internacionais: Sin Dios, Discharge, Disclose e Força Macabra

1 livro: História do Movimento Anarquista no Brasil – Edgar Rodrigues

1 cd: Violent Headache – Bombs of Crust / False terminal

Uma frase:

Mais vale um instante de vida verdadeiro, do que anos vividos em um silêncio de morte!

18- Deixe sua mensagem final:

Valeu Cremogema, por mais uma vez ceder um espaço no CxExPx!!! Parabéns pela organização do site, muito bem organizado e fortalecendo cada vez mais a contracultura underground!

 

Depois

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Cremo é idealizador e fundador do Cultura em Peso, Asatrú, amante incondicional da fotografia e da cena underground, na qual vive intensamente há 16 anos. Formado em Redes para Computadores, é ex-vocalista das bandas La Tormenta (Grind) e Dead Bush (Punk), ambas de Minas Gerais. Ouve de Punk Rock a Metal Extremo, tendo como principais bandas na sua playlist Ratos de Porão, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Circulo Activo, Amon Amarth, Elluvetie e Lacerated and Carbonized. Literalmente um Viking que não marca território: o mundo é sua morada. Lê constantemente sobre política, religião, história das guerras e a autodestruição humana que não aprendeu até hoje a viver com as diferenças. Some com a cena ou suma dela mesmo, agora!

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