DPR: Do Protesto a Resistência concede entrevista

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Há cerca de 10 anos era criado um grupo que buscava aliar duas forças culturais  e musicais da periferia paulista, o Hardcore e o Rap. Um desafio montar uma banda que trouxesse uma nova roupagem do rap dentro do HC. Muitas porta no inicio se fecharam, mas armados de caneta e microfone todas elas estão se abrindo.

Na foto acima, o grupo esteve ao vivo na rádio 89FM de São Paulo.

Do Protesto à Resistência se destaca na periferia, por jovens que viveram nela ou a beira dela, conhecedores da realidade das favelas, da pobreza e que sabem na pele tudo que se passa em suas próprias letras.

Em 2012 O álbum, Platoon foi lançado e está disponível para download gratuito. A banda estourou em todas as cenas do hardcore e do rap pelo peso de suas letras e a qualidade das músicas.

 

Entrevista foi respondida por Ricardo Stefano.

1- O DPR não é a primeira banda do estilo em si, mas revolucionou a cena trazendo o rap de uma forma diferente para dentro do hardcore. essa ideia foi bem aceita no inicio da banda?

O DPR fez uma releitura do Rapcore dos anos 90 né! Aprendemos naquela escola mas gostamos de bases mais rápidas e mais metal! Então fizemos algo mais agressivo! Não fomos bem aceitos meu mano! Muitas portas demoraram pra abrir, o público foi o principal fator para que elas se abrissem! Até hoje né!? E é isso!

2- Mas hoje o DPR já esta entre os grandes nomes do hardcore, mostra que é uma superação, vencendo barreiras, como vocês vêem este progresso?

Meu mano a nível de BRASIL fica difícil dizer, mas em São Paulo estamos no mesmo circuito que as principais bandas se apresentam! Vemos como reflexo de muito trabalho e resistência, pois muitas vezes você está à deriva né, não sabe bem onde vai chegar! O amor sempre falou mais alto, talvez esta seja a principal razão do progresso!

3- Qual foi o principal ideal do DPR ser criado? Esse objetivo já foi alcançado?

A criação do DPR foi direcionada exatamente pra chegar a este ponto! Uma banda que seria lembrada principalmente pelas ideias contundentes, pelo resgate, pela informação… alcançamos em parte sim, sempre que alguém fala de DPR, logo relaciona a resistência social! Hoje o objetivo é expandir pra mais territórios e ouvidos. Nossa mensagem! Já chegamos longe, mas ainda falta bastante!

4- Quem é o Ulisses que a banda sempre homenageia? Você pode contar um pouco da história dele e a relação com o DPR?

Ulisses tal como vários outros manos foram peças chave no início do DPR ( amigos que acompanhavam e apoiavam a banda), Ulisses foi um irmão que particularmente me apoiou muito dentro e fora da banda, infelizmente foi vítima do sistema de saúde precário da periferia onde vivia, Grajaú zona sul de São Paulo!
Faleceu aos 24 anos de “bronquite” que se agravou e acarretou em complicações…

 5- Mais um caso de tantos do descaso dos administradores. … Vocês falam a realidade da favela nua e crua, isso é um desabafo da vida que vocês vivenciam?

Irmão nasci pobre no interior de São Paulo, meu pai faleceu eu tinha 2 anos deixou minha mãe eu e mais duas irmãs, só não morei em favela por que minha mãe sempre teve receio, mas sempre vivi a margem de várias, vivi na região central de São Paulo durante boa parte da vida, pobre vivendo no coração do monstro é pior que viver nos extremos, além dos olhares preconceituosos, tem inúmeras outras questões que a falta de poder aquisitivo atrai… eu sou o responsável pelas letras, canto o que vivi e vivo, o que vi e vejo, e também retrato a vida dos meus irmãos de banda, que são donos de histórias muito próximas a minha…

6 – Entrando nessa questão que a falta de poder aquisitivo atrai, você acredita que essa é a principal fonte de ingresso de tantos jovens no crime?

Complexa a pergunta meu mano! O crime abraça por inúmeros motivos! Um deles é a proposta da propaganda que passa na TV, quem não quer ter o carro do ano? Quem não quer a 600 bolada?
São muitas respostas!  A falta de participação no bolo faz com que existam outros caminhos a fome, o vício, a pobreza, a vaidade…

 7- nas letras você cita “que ficou na porta giratoria”. Esperanças se caem quando não tem mais como voltar. qual a sua mensagem pro jovem que está na berlinda, entre buscar enfrentar as mil dificuldades ou entrar no crime?

Sou exemplo vivo que existe uma saída! Basta ter força mental! Somos testados o tempo todo desde pivete, independente da condição social! O barato é estudar e se informar, ficar mais forte na forma de raciocinar! Aí o restante meu mano vem no bolo!

8- Hoje você é formado em alguma área? Tem uma profissão sólida? O que você faz hoje em dia?

Sou auto-didata em várias fitas, tenho meia faculdade de História, sonhava ser professor de humanas! Mas…. Trabalho desde os 15 anos, numa empresa, sou gerente de produção atualmente! Tenho outro projeto na área de Vestuário, que em partes está vinculado ao DPR!

 9- Você pode considerar um vencedor nesse role que é a vida não é mesmo? E qual é esse projeto de vestuário, conte pra nós!

Vitoria é estar aos 36 trocando esta ideia contigo tá ligado, cresci onde a média de vida era 20… tenho uma estamparia, produzo minha marca chamada Santa calle, produzo algumas marcas de camaradas, faço merchandising do DPR e de algumas bandas daqui de São Paulo! Nada grandioso, o foco é a marca mesmo!

10- Isso já é um grande passo irmão! O que o DPR prepara para 2017? Vem alguma tour? material novo?

Já é sim, trabalhar é a chave né?!?

Meu mano o DPR está preparando um som junto ao Rodrigo do Dead Fish, já temos algumas ideias encaminhadas de data para gravação que é fevereiro! Temos algumas ideias de singles ao longo do ano! Um deles um cyfer com todos os mcs do DELARUA que provavelmente vem com clipe, temos um outro clipe encaminhado que lançamos em fevereiro também!!!

11- jogo rápido:

4 bandas nacionais: Sabotage,  SNJ,  Dead Fish e Confronto
4 bandas internacionais: NWA, Psycho Real, Lá Coka Nostra e Tupac
Favela : Vive e resiste
São Paulo: É selva! Se vacilar ela te engole.
Hardcore : Se não for em portugês …
Rap: Precisa retornar as raízes políticas
Violência :  Tem cura
Política nacional: Se não fizermos eles continuarão fazendo por nós
DPR : Organização
Família: Em primeiro lugar
Um cd: Chora agora, ri depois
Um livro: Crime e castigo
Uma frase:  Torna-te quem tu és

12- o primeiro disco da banda foi um sucesso, e se tornou a casa para os ouvidos dos amantes do hardcore e do rap, a banda ao preparar um segundo álbum full, terá um peso de responsabilidade pra fazer algo melhor ou a mesma altura?

Pode pah!
Estamos tentando reformular o método de alcançar nosso público, vemos que atualmente as informações em grande quantidade são pouco aceitas e entendidas! Vamos soltar mais material porém de forma separada, um vídeo, um lyric, um single, e por aí vai!

 13- DPR sempre vai manter temas sociais em suas letras? Como a banda vê atualmente a crise do sistema carcerário no país?

O DPR  nasceu da insatisfação social! “Se” conseguirmos de fato alcançar a paz almejada, paramos pois não vai fazer mais sentido cantar o que cantamos! O sistema prisional e carcerário é uma vergonha, se trata de um depósito humanos, o que na verdade deveria ser um processo de reintegração, prevejo piora nos próximos anos pois toda ação gera uma reação certo? E já estamos vendo as rebeliões cada vez mais violentas! É o reflexo do descaso! É necessário repensar o sistema antes que seja tarde demais!

14- Oque deve ser revisto de imediato primeiro? educação, saúde ou a segurança pública ( que engloba o sistema carcerário )?

 

 

Educação com toda certeza, a base de qualquer estrutura social!

15- Qual a profissão de cada membro da banda? o estudo sempre será a melhor opção? a banda crê que um dia poderá viver apenas dela mesmo?

Stefano – Metalúrgico
Pochete – Técnico de Telecom
Vinao – Estudante
Greg – Estudante
Cezinha – garçom

Estudar é a chave sim meu mano, evolução psicológica, intelectual, estudar, se informar permite uma visão de mundo mais ampla né!? Viver da arte? É um sonho que em partes já vivo, mas não só da música, espero um dia viver unicamente desta arte e para ela sim!

16- Você já sofreu preconceitos nas empresas que trabalhou por ser um jovem de periferia? Como é crescer dentro de empresas nessas situações?

Irmão nunca sofri preconceito dentro deste nicho, mas já sofri em diversos outros lugares! Ser “pobre” não vou nem dizer de periferia, pois tem muita gente humilde nos grandes centros, é muita treta, o fato de você ser pobre da margem na mente de outro ser com um pouco mais de cédulas achar que você é burro, ou iletrado, ou assaltante, ou doente até… Já duvidaram do meu potencial inúmeras vezes…

 16- Quem conhecer o DPR, onde pode encontrar? e como contratar a banda?

Onde encontrar Do Protesto à Resistência:
• Facebook: bit.ly/fbdpr412
• Twitter: bit.ly/ttdpr412
• YouTube: bit.ly/ytdpr412
• Instagram: bit.ly/igdpr412
• Merch: bit.ly/merchdpr
• Soundcloud: bit.ly/scdpr412
• Bandcamp: bit.ly/bcdpr412
• Spotify bit.ly/s1dpr412 | bit.ly/s2dpr412
• Deezer: bit.ly/dz1dpr412 | bit.ly/dz2dpr412
• iTunes: bit.ly/it1dpr412 | bit.ly/it2dpr412h

Para contratar, duvidas, sugestões etc:

[email protected]

18-  Mensagem final para os leitores do cep e fans do DPR?

Informação ao invés de condenação, sempre foi a chave, aprender para poder ensinar, escutar mais do que fala, observar, raciocinar… Respeita quem te ama… torna-te quem tu nasceu para ser… forte abraço Do Protesto à Resistência e Delaruacrew.

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Cremo é idealizador e fundador do Cultura em Peso, Asatrú, amante incondicional da fotografia e da cena underground, na qual vive intensamente há 16 anos. Formado em Redes para Computadores, é ex-vocalista das bandas La Tormenta (Grind) e Dead Bush (Punk), ambas de Minas Gerais. Ouve de Punk Rock a Metal Extremo, tendo como principais bandas na sua playlist Ratos de Porão, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Circulo Activo, Amon Amarth, Elluvetie e Lacerated and Carbonized. Literalmente um Viking que não marca território: o mundo é sua morada. Lê constantemente sobre política, religião, história das guerras e a autodestruição humana que não aprendeu até hoje a viver com as diferenças. Some com a cena ou suma dela mesmo, agora!

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