Vorgok: Cariocas em papo reto sobre metal e sua carreira

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1- Vorgok foi formado em 2014, Qual a experiência adquirida desde então com a banda?

Desde o início, quando éramos apenas eu e o João Wilson (baixo) na banda, a ideia foi fazer as coisas de modo diferente ao que é usualmente feito. Atualmente, a banda conta ainda com Bruno Tavares (guitarra; Demolishment, Forceps) e o session drummer Jean Falcão (Absolem, Dark Tower). O roteiro padrão é: compor músicas, ensaiar pra cacete, sair pra tocar em qualquer lugar e, num futuro incerto e não sabido, gravar material, que muitas vezes acaba sendo um EP. Optamos por inverter alguns termos desse roteiro, ficando assim: compor, gravar um full-length, que veio a ser o “Assorted Evils”, ensaiar e sair pra tocar. O álbum foi lançado muito recentemente, no último dia de finados (02/11/2016), mas mesmo assim tem tido uma receptividade que nos surpreendeu, com várias resenhas positivas no Brasil, França, Austrália, inclusão na programação de webradios da Europa e América do Sul, vários pedidos de entrevista, etc. Seguindo nosso planejamento, a banda começou a tocar ao vivo agora no início de 2017 e temos recebido vários bons convites para shows. Ao que tudo indica, e assim esperamos, 2017 será um bom ano para a divulgação do CD em termos de apresentações ao vivo.
2- Rio de Janeiro terra do carnav… do metal? Como ainda a cena carioca?

A cena underground carioca sofre dos mesmos males que castigam outras cenas pelo Brasil. O que pode haver entre as cenas são diferenças de grau dos problemas, mas eles são os mesmos: entre outros, poucos espaços para tocar, condições geralmente abaixo do mínimo aceitável, poucos produtores com a visão de realizar um trabalho sério, público reduzido e, atualmente, a grave crise econômica que enfrentamos tem piorado muito as coisas, até porque as bandas precisam elas mesmas investir no seu trabalho. O lado positivo é que, mesmo assim, há inúmeras bandas excelentes nos mais variados estilos de metal e que levam sua arte à sério e que, junto com esses poucos produtores e público, conseguem manter a cena viva e pujante. Acredito que uma nova época começa a se desenhar na cena carioca, com muitos dos envolvidos adotando uma visão empreendedora e não se deixando seduzir cegamente pela paixão que temos pelo metal, o que pode levar, por falta de racionalidade e excesso de emoção, à tomada de decisões equivocadas sobre os rumos a seguir. Acredito firmemente que estão sendo plantadas sementes para um futuro muito melhor.

3- A banda reinventa o thrash em suas músicas, como é feito tudo isso?

Obrigado pelo elogio, mas, sinceramente, acho um pouco exagerado. Nossa pretensão nunca foi reinventar o estilo, mas apenas, dentro da vertente do thrash de que mais gostamos (a mais brutal), fazer música de qualidade e, claro, imprimir nossa personalidade nela, não soando como uma mera cópia. Por isso, você perceberá influências óbvias, como Slayer antigo (é inevitável: em breve farei 45 anos e conheço o Slayer desde antes do lançamento do Hell Awaits. O troço está entranhado em mim! rsrsrsrsrs), Dark Angel, Sacrifice, Dorsal Atlântica, Sepultura e Kreator antigos, algum Exodus e algum Death Metal old school no estilo da Flórida. Nossa preocupação com que algumas pessoas nos vejam como clones é zero: perceba que quanto às bandas que citei, algumas estão inativas e outras mudaram consideravelmente sua sonoridade. Pessoalmente – e me considero um grande “garimpeiro” de bandas underground – fico muito satisfeito quando encontro uma banda cujas referências consigo relacionar a essa abordagem mais tradicional, brutal e crua do thrash que as grandes bandas antigas ainda em atividade deixaram para trás. Para mim, o importante mesmo é conseguir me conectar com o som de uma banda, vindo essa mítica “originalidade pura” em segundo plano. Perceba: às vezes, a originalidade é utilizada como pretexto para fazer, sendo bem franco, metal ruim. Conclusão: o importante mesmo é o estabelecimento dessa conexão de que falei.
4- O que significa Vorgok? De onde vem sua explicação?

O nome “Vorgok” surgiu da necessidade de uma palavra que fosse curta, soasse forte e traduzisse a seguinte ideia: a coleção de todos os males passados, presentes e futuros praticados e a serem praticados pela humanidade. Tendo em vista a inexistência de uma palavra que designasse esse coletivo, fui fazendo experiências até chegar em “Vorgok”.

5- A banda demorou um ano praticamente para gravar seu primeiro álbum, como foi a produção deste trabalho?

Essa demora toda ocorreu porque, infelizmente, houve grandes intervalos entre as sessões de gravação. Nesse ponto, pecamos um pouco no nosso planejamento, pois deveríamos ter dado mais atenção à pré-produção. Creio que a vontade de entrar no estúdio e gravar o material misturou-se com certa ansiedade. Eu sou o culpado! rsrsrsrs. De outro lado, circunstâncias pessoais dos membros da banda também acabaram por atrasar o processo. Afinal, não vivemos da banda, temos nossas profissões, famílias e outras obrigações para cuidar também. Porém, ficamos extremamente satisfeitos com o resultado final. O álbum foi produzido, mixado e masterizado por Celo Oliveira, e ele soube captar com precisão cirúrgica a sonoridade que buscávamos: um equilíbrio entre o antigo e o moderno, isto é, uma sonoridade claramente compreensível mas que não fosse límpida como os padrões atuais, que muitas vezes te fazem sentir falta do elemento humano.

6- Qual a maior exigência do público nos dias atuais em se fazer metal?

Essa é uma questão muito complexa, pois pode ser abordada a partir de diversos pontos de vista que não seriam passíveis de consideração profunda em uma entrevista. Primeiro, cola-se a questão: quem é o “público”? Não seria mais apropriado falar em “públicos”, assim mesmo, no plural? As pessoas que se contentam apenas com o que a internet oferece – e tem muita gente nessa categoria – e as pessoas que fazem questão de assistir bandas ao vivo podem ser tratadas da mesma maneira e sob o mesmo rótulo? Dentro deste último grupo, como é possível a uma banda underground alcançar as pessoas que somente reconhecem valor às bandas internacionais e somente frequentam estes shows? Outros questionamentos podem ser feitos, mas estes, creio, bastam pra fixar o seguinte ponto: como há diversos públicos, há diversas exigências, e saciar isso tudo é uma tarefa dificílima. Não existe uma fórmula de sucesso, mas posso compartilhar o planejamento – adoro essa palavra! – que adotamos no Vorgok: geramos conteúdo para internet (já fizemos um clipe para a faixa “Hunger” e estamos trabalhando em outros dois; disponibilizamos um videomenu no youtube onde é possível ouvir o disco inteiro e acompanhar as letras em tempo real), disponibilizamos nosso CD em todas as grandes plataformas de streaming e download, vendemos o CD físico pelo preço de custo + frete (como forma de prestigiar os “die hard headbangers”, que são as pessoas que, sem a menor dúvida, se tornam apoiadores legítimos da banda), vendemos merchan com margem de lucro pífia (com objetivo principal de fortalecer a “marca” Vorgok) e, por fim, aceitamos convites para tocar ao vivo em situações que realmente agreguem valor à banda, isto é, em geral, em condições de palco e de estrutura para o público (banheiros, bar, localização e transporte) minimamente aceitáveis e com bandas que levam seu trabalho à sério e já tenham sua identidade e espaço na cena. Underground e banda independente não são sinônimos de amadorismo! Não estamos nos anos 80 – quando, pra ouvir metal, sua melhor alternativa era justamente ir aos shows – e, por isso, ficar tocando por aí em qualquer buraco de lacraia pra uma dúzia de gatos pingados não me parece proveitoso, pois, atualmente, essa não parece uma boa opção para formar o seu público já que você praticamente não alcança ninguém fazendo isso. Entenda: pouquíssima gente se dispõe a sair de casa para ir ao show de uma banda que não conhece. Então, as pessoas vão ao seu show porque já te conhecem (ou porque conhecem as bandas que tocarão com a sua). E como isso é feito? Através da internet. É o ideal? Não. Gostava muito mais dos anos 80, quando a gente ia pras casas de show muitas vezes sem saber ao certo o que ia rolar, e aí havia sima chance de formar público. É o real? Sim, e quem não aceitar isso, creio, não terá vida longa.

7- Qual é a temática da banda? No que ela se preocupa em transmitir em suas letras?

O significado do nome “Vorgok”, como expliquei acima, anuncia nossa temática lírica. Nesse primeiro CD, os temas abordados foram intolerância religiosa (“Kill Them Dead”), manipulação (“Deception in Disguise”), opressão (“Antagonistic Hostility”), extermínio das espécies (“Last Nail in our Coffin”), direitos dos povos do terceiro mundo à alimentação (“Hunger”), à educação (“Headless Children”), ao refúgio (“Mass Funeral at Sea”), escravidão no século XXI (“Man Wolf to Man”) e o ressurgimento de doutrinas nacionalistas xenofóbicas como o nazismo (“Hell´s Portrait”). A maior parte das letras teve por base pesquisas de relatórios de organismos da ONU como FAO, ACNUR, UNICEF e artigos doutrinários veiculados em variadas publicações. “Kill Them Dead”, por exemplo, teve por base um famoso artigo do grande Norberto Bobbio chamado “As Razões da Tolerância”. Não tenho a ilusão infanto-juvenil de que uma banda underground de thrash metal seja capaz de aplacar diretamente males históricos de tamanha envergadura, mas acredito que é possível dar uma colaboração quanto à conscientização das pessoas para sua existência e, assim, por via indireta, fomentar a tomada de atitudes que, elas sim, possam se opor paulatinamente à tais atrocidades.
8- Contatos:

email oficial: [email protected]
facebook: https://www.facebook.com/vorgok/
youtube: https://www.youtube.com/channel/UCEUEey8HY-IQRNYvYPJC3wQ
instagram: https://www.instagram.com/vorgok/

9- Jogo rápido:

4 bandas nacionais: quatro bandas é MUITO pouco para citar, mas, sem pensar muito, citaria Andralls, Attomica, Sacrario e Blackning, que, creio, seguem uma linha de thrash que é a que procuramos seguir.
4 bandas internacionais: também é MUITO pouco, mas citaria algumas que conheci recentemente e gostei muito: Ripper (Chile), DunkelNatch (França), Unanswered RIP (França) e Revolution Within (Portugal).
1 cd: “Hell Awaits”, Slayer.
1 livro: “Crime e Castigo”, Dostoievsky.
Família: geralmente, “chocadeiras” de adultos perturbados.
Metal: pra sempre!
Uma frase: “Pra quê o medo se o destino é a morte?”

10- Mensagem final:

Gostaria de agradecer ao espaço para a entrevista e convidar os leitores para subscrever nosso canal no youtube para receber notícias atualizadas da banda – não se preocupem porque não vamos encher o saco de ninguém com babaquices irrelevantes “pra estar em evidência”! -, bem assim para ouvir nosso som nas plataformas de streaming e, caso haja interesse, adquirir o CD físico e merchan através da nossa página no facebook. Fiquem ligados porque 2017 promete! Thrash on!

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Cremo é idealizador e fundador do Cultura em Peso, Asatrú, amante incondicional da fotografia e da cena underground, na qual vive intensamente há 16 anos. Formado em Redes para Computadores, é ex-vocalista das bandas La Tormenta (Grind) e Dead Bush (Punk), ambas de Minas Gerais. Ouve de Punk Rock a Metal Extremo, tendo como principais bandas na sua playlist Ratos de Porão, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Circulo Activo, Amon Amarth, Elluvetie e Lacerated and Carbonized. Literalmente um Viking que não marca território: o mundo é sua morada. Lê constantemente sobre política, religião, história das guerras e a autodestruição humana que não aprendeu até hoje a viver com as diferenças. Some com a cena ou suma dela mesmo, agora!

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